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01 Setembro/2006  
Ano 88º  
Edição N.º 5472  
 
 
  REPORTAGEM

Ano lectivo começa com menos escolas

Escolas de acolhimento prontas e à espera dos alunos

Fontela (Vila Verde), Morros (Bom Sucesso), Esperança, Broeiras e Carvalhal (Alhadas), Cunhas (Moinhos da Gândara), Carritos (Tavarede) e Calvete (Alqueidão) são as localidades com escolas do 1.º ciclo que este ano encerram as suas portas devido ao número reduzido de alunos, menos de 10.
As cerca de 35 crianças são transferidas para as chamadas escolas de acolhimento. A autarquia figueirense, respeitando as directrizes do Ministério da Educação, tem em mãos elevados encargos financeiros com esta nova postura educacional.
Teresa Machado, vereadora da Educação, afirma que “a ministra da Educação não tem noção das dificuldades diárias encontradas no terreno” para implementar esta medida.

Mais de três dezenas de alunos do 1.º ciclo do concelho da Figueira da Foz são este ano encaminhadas para outras esco-as, o mais próximas possíveis das suas residências. É esta a vontade do Ministério da Educação (ME) quando em causa estão escolas com menos de 10 alunos. Serra da Boa Viagem, Porto Godinho (Borda do Campo) e Cabecinhos (Lavos) estão mesmo no limite.
Ainda que na Figueira da Foz o cenário não seja tão alarmante como noutros concelhos, alunos e pais encaram com apreensão este novo modelo, na medida em que as crianças deixam as suas escolas, os seus meios já conhecidos, e partem para o desconhecido. Novas salas, novos professores, novos colegas, novos métodos e novos ambientes.
O ME garante transporte para estas crianças sempre que esteja em causa uma distância superior a três quilómetros. E para aqueles que agora têm de percorrer um ou dois quilómetros, ou mesmo uns hipotéticos 2.999 metros? A autarquia figueirense, neste caso, assume o transporte. “Não faz sentido que uns tenham melhores meios do que outros. Queremos o bem estar e a qualidade para todas as nossas crianças, por isso vamos assumir essas falhas e encontrar as melhores soluções”, sublinha a vereadora da Educação Teresa Machado.

Centena e meia de novos professores

As novas directrizes educacionais são “muito complexas”. Teresa Machado dá o exemplo da implementação das actividades de enriquecimento curricular, que decorrem no horário escolar, até às 17h30. Os pais podem optar por colocar os seus filhos, após o horário normal da aulas, em actividades de inglês, educação física, educação musical ou artes plásticas. Trata-se de 2.200 crianças do 1.º e 2.º ciclos que carecem de um espaço físico.
Teresa Machado garante que “já temos os locais escolhidos”, havendo ainda alguma incerteza no caso da freguesia de S. Pedro. Quando pedido o apoio de instituições de solidariedade social (também no transporte das escolas para as referidas actividades) “não tive-mos receptividade da parte delas (exceptuando a Fernão Mendes Pinto), não se mostraram receptivas a colaborar nem mediante uma contrapartida financeira”.
Respeitando a lei, a autarquia figueirense irá contratar perto de 150 professores para as quatro actividades de enriquecimento curricular, mais os necessários auxiliares de acção educativa, assegurando ainda o transporte e investimentos nalguns edifícios. O ME entrega à autarquia um apoio financeiro de 250 euros por ano para cada aluno neste plano. Verba essa considerada “irrisória” pela autarca. “Os encargos para as autarquias não são cobertos pelo ME de forma nenhuma. “A ministra da Educação não tem noção das dificuldades diárias encontradas no terreno”, para implementar estas medidas, afirma Teresa Machado.
A ex-professora, contudo, diz que “aplaudo estas medidas de enriquecimento pessoal das nossas crianças, em ter-mos pedagógicos. Mas o ME não fez bem os trabalhos de casa, e não está a conduzir o processo da melhor forma. Há falta de articulação, por exemplo, com o Ministério da Solidariedade Social”.
Ainda assim, Teresa Machado (que tem mantido reuniões periódicas com os agrupamentos escolares) garante que “temos todo o sistema montado, pronto a funcionar. Desde os novos espaços físicos ao transporte escolar”. Falta agora saber se os encarregados de educação irão optar por colocar as crianças nestas actividades, ou em instituições particulares. No regresso às aulas, acredita Teresa Machado, cada escola irá auscultar os pais a fim de dissipar dúvidas e avançar-se com números concretos.
Quanto à alimentação, na maior parte das escolas é providenciada ou pelas comissões de pais e encarregados de edu-cação, ou por instituições privadas. E neste particular, Teresa Machada recorda que a autarquia figueirense despende anualmente 50 mil euros com a alimentação de alunos social e financeiramente carenciados.

Centros escolares em stand by

A Carta Educativa (CE) elaborada pela autarquia figueirense prevê a construção de, no mínimo, 18 centros escolares. Espaços que irão receber as tais actividades extra-curriculares, refeitório, biblioteca e ludoteca, entre outras valências.
Segundo a vereadora, a Carta Educativa está concluída, à espera de aprovação do Ministério da Educação. Só de-pois é que será possível a captação de investimentos. A autarca garante ter já confirmado, ainda que verbalmente, o parecer positivo da Direcção Regional de Educação do Centro que, sublinhou, “considera a nossa CE exemplar”.
O atraso da conclusão da CE deveu-se a vários motivos, como seja uma nova regulamentação da Educação, o pedido recente da previsão dos investimentos e localização de cada futuro centro escolar.
A concluir, Teresa Machado afirma que a implementação de todo este sistema educativo, concelhio, com o apoio dos agrupamentos escolares, “é uma tarefa hercúlea. A Ministra da Educação não faz a mínima noção do que isto acarreta...”.

Jorge Lemos

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Universidade Internacional actualiza-se com Bolonha

A Universidade Internacional da Figueira da Foz (UIFF) está com nova dinâmica e a actualizar os seus cursos. Carla Murta, secretária-geral da instituição, refere a O Figueirense que “estamos, no início de uma profunda reforma do ensino superior, provocada em larga medida pela adequação do nosso sistema ao ‘Processo de Bolonha’. O mesmo será dizer, estamos numa mudança na cultura universitária, sem que no entanto esta deva abandonar os seus valores ancestrais que continuam e continuarão a ser, a difusão da cultura, a preservação e o incremento do conhecimento através do ensino e da investigação científica, a resposta às exigências e ansiedades da sociedade contemporânea, devendo no entanto a universidade não se comprometer com definições superficiais, decorrentes de conceitos como ‘teologia do mercado’ ou ‘ditadura da inovação’”.
Para esta responsável pelo estabelecimento de ensino, “a Universidade Internacional da Figueira da Foz tenta acompanhar, com a devida prudência, a actual reforma em curso”. Está, porém, consciente das responsabilidades e dos enormes obstáculos que vai encontrar.
Na sua opinião, a universidade da Figueira “nunca considerou a aplicação do Acordo de Bolonha como uma mera adequação administrativa da duração dos cursos. Se o fizéssemos, estaríamos a pres-tar um mau serviço aos nossos estudantes, às famílias, às empresas e organizações que recrutam os nossos diploma-dos. O Processo de Bolonha serviu para repensar o processo educativo, a formação dispensada aos alunos nos diferentes ciclos, as competências adquiridas em cada ciclo de estudos e a sua relevância profissional”, diz convicta.
Carla Murta acrescenta que deste esforço resultou a transformação dos três cursos de licenciatura: Direito (quatro anos), Psicologia (três anos), Gestão (três anos) e a criação de oito novos cursos de mestrado.
“Tal significa que no próximo ano lectivo todas as licenciaturas estarão a ser oferecidas segundo as novas regras. Porém, os verdadeiros desafios e obstáculos colocados pela aplicação do Acordo de Bolonha começam agora. Alguns têm obrigatoriamente que ser resolvidos por nós próprios, no seio das instituições: a transformação do modelo de ensino e a melhoria da sua qualidade, a maior exposição internacional da universidade ou a adopção das melhores práticas científicas e pedagógicas”.

Parcerias inéditas

Outros desafios ainda só poderão ser ultrapassados no enquadramento de diferentes sectores da sociedade, destacando-se naturalmente a estrutura empresarial na sua globalidade. “Cada um deve assumir as suas obrigações em todo este processo. Não basta, pois, no caso vertente da reforma de Bolonha, apresentar no ministério da tutela uma diferente configuração da oferta curricular da cada uma das instituições aderentes, vestindo-a com novas roupagens, tentando tanto como possível, obedecer à estrutura preconizada no Dec. Lei 74/2006”, explica a responsável.
Prosseguindo, salienta que “de nós, universitários, exigimos um superior empenhamento dos professores, dos alunos e de toda a estrutura de apoio, mais qualidade, melhor definição de objectivos não só no ensino como principalmente na investigação científica em qualquer das suas dimensões, vontade de trabalhar em amplas redes de cooperação, cedência em certas prerrogativas pessoais, melhor gestão dos recursos e consciência de que a sociedade tem o direito de saber o que fazem as suas universidades”. A UIFF tem vindo a estabelecer parcerias de elevada importância, algumas até inéditas, que serão plataformas importantes para assegurar todo o processo de reforma do ensino na UIFF.
Das tutelas, “contamos que reconheçam que a reforma de Bolonha, para que possa levar a cabo os seus objectivos com sucesso, tem de ser acompanhada e com urgência de outros procedimentos e reformas”, nomeadamente a lei da autonomia das universidades – “precisamos de um acto legal que nos permita actuar com maior responsabilidade, mas sem sermos surpreendidos constantemente por alterações pontuais, desenquadradas”; também a reforma do ensino secundário, “para que os professores e alunos sejam preparados para as novas perspectivas decorrentes da reforma do ensino superior”; a revisão e orientação do ‘acesso ao ensino superior’, “simplificando e flexibilizando o ingresso mas, obviamente na observância de alguns princípios”.
Dos empregadores, especialmente a indústria e serviços, refere Carla Murta, “espera-se um olhar renovado sobre a problemática e significado dos novos conceitos de ‘licenciatura’ e ‘mestrado’, cuja empregabilidade deve ter efeito a vários níveis, todos eles válidos”.
Desta forma, “pede-se que os conteúdos curriculares dos candidatos ao emprego sejam devidamente avaliados, incluindo os ligados tradicionalmente às ciências humanas e sociais que certamente introduzirão muitas e boas surpresas”, conclui Carla Murta na certeza de que “os alunos da UIFF estão em Bolonha”.

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Manuel Mariano: Um advogado aficionado pela arte tauromáquica

“As touradas são como o arroz de lampreia, ou se gosta ou não se gosta”

“Ainda me recordo da primeira vez que fui assistir a um espectáculo tauromáquico. Tinha quatro anos e fui com o meu pai ao Coliseu da Figueira”.
Foi com estas palavras que Manuel Cruz Mariano, advogado de 68 anos e natural da Figueira da Foz, iniciou o seu discurso, algo saudosista no que toca ao tema em discussão.

Há 37 anos que pratica advocacia, mas o gosto pela arte tauromáquica está patente na sua personalidade. “É sem duvida um espectáculo que envolve um turbilhão de emoções, não só para quem está a assistir co-mo também para quem tou-reia e quem é toureado”, contou a O Figueirense, referindo que o gosto tem génese idiossincrática.
O fascínio e tudo o que envolve a lide de touros sempre o cativaram, dada a tenra idade com que se iniciou nestas andanças. O facto é que este gosto foi-se desenvolvendo, bem como os conhecimentos que envolvem esta arte.
Exemplo disso, foram os testemunhos revelados ao nosso jornal, de idas a praças para assistir a espectáculos grandiosos que ficaram gravados nos anais da história tauromáquica.
A presença no dia em que Conchita Citrón pela primeira vez, há 58 anos, enfrentou um touro enraivecido, foi acontecimento destacado por Manuel Mariano.
“A surpresa instalou-se no Coliseu, era a primeira vez que uma mulher pisava a arena, mas fê-lo de forma artística e superior”.
Referiu também a presença de um mexicano em terras lusas, Gregório Garcia, personalidade imponente na arte que “depois da 2ª Grande Guerra veio levantar a moral e o regresso da aficcion da festa brava em Portugal”.

Um símbolo de ordem cultural

Manuel Cruz Mariano destaca ainda a arte de tourear e o gosto pela mesma como um factor de identidade e cultura de um povo, sobretudo para o povo da Península Ibérica.
Questionado sobre a eventual presença de dolo quando o toureiro actua perante o touro, Manuel Mariano responde que “não encaro a intenção como um facto, acho que há um combate, em que temos os protagonistas e os protagonizados. Se acabasse a tourada, acabava a espécie do touro bravo”.
Salienta ainda que o touro bravo não se pode considerar uma raça animal criada pela natureza, mas sim uma raça bravia que vem sendo aperfeiçoada ao longo dos tempos pela mão humana, o que não lhe tira o carácter de fera. A lide é uma luta entre o homem e uma fera.
Quanto à festa dos touros em Portugal e a legislação em vigor, o causídico refere que “as touradas são como o arroz lampreia, ou se gosta ou não se gosta. É sobretudo uma questão de sensibilidades”, compreendendo quem não gosta do espectáculo.
Não embarca muito em esclarecimentos relativos à lei, mas destaca a atitude do público, que por vezes pelo entusiasmo e emoção se deixa levar, desrespeitando e quebrando a concentração do toureiro e mesmo a atenção do touro que se distrai com extrema facilidade. Em tom conclusivo destacou que “a regulamentação legal é fundamentalmente para a forma de obstáculo e para evitar fraudes quanto à idade e à forma de lide”.

Cristiano Costa

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