Director:  
08 Setembro/2006  
Ano 88º  
Edição N.º 5473  
 
 
  REPORTAGEM

Homenagem à Senhora da Encarnação

Até domingo, Buarcos recebe as Festas em Honra de Nossa Senhora da Encarnação. Do programa festivo, destaque para a actuação de Paulo de Carvalho e sua Banda, sábado, a partir das 23h00.
As festas agregam em si uma forte componente religiosa, na medida em que a receita apurada reverte para a requalificação da Capela de Nossa Senhora da Encarnação.
Ontem à noite saiu à rua a Procissão das Velas com saudação à Virgem, e domingo, às 16h30, terá lugar uma solene eucaristia no largo em frente à capela, seguida de procissão acompanhada por duas filarmónicas. Hoje, amanhã e domingo, sempre a partir das 21h30, o espaço recebe arraiais com música ao vivo.
A comissão de festas de Nossa Senhora da Encarnação desdobra-se para que nada falhe e para que o pequeno templo possa ser renovado.
De Buarcos, de todo o concelho e até de fora, chegam pessoas para assistir, participar e tornar mais rico este momento alto da vida da vila, que alia o sagrado e o profano de uma forma tipicamente portuguesa.
Este é o mais vivo sentimento e fé de um povo que, ano após ano, se renova.

Receitas da festa revertem para recuperar a Capela

Conceição Ministro São Marcos, Maria Ivone Lopes Silva, Lucinda Basílio, Conceição Grilo Mano, Maria José Lourenço dos Santos, Ana Bela Reis Redondo, Maria Licínia Ministro, Olívia Maria Coelho Rolo e Conceição da Silva Banca. São actualmente em número de nove as mulheres que constituem a comissão de festas da Senhora da Encarnação. E há muito para fazer.
O principal objectivo destas mulheres é conseguir, com a receita da festa, contribuir para a recuperação da Capela de Nossa Senhora da Encarnação. Ano após ano, congratulam-se por faltar um bocadinho menos do muito que é necessário para devolver àquele espaço de culto a dignidade que a devoção das gentes de Buarcos exige. De entre as obras que urgem, as mulheres realçam, com sentido prático, a reparação do pedaço de chão em pior estado, intervenção que, sozinha, deve rondar os três mil euros. Uma verba que terá de repetir-se ainda por muitos anos, até que o madeiramento do tecto, o douramento dos altares e os acabamentos vários possam dar por recuperada a capela. “Há trabalho para muitos anos”, garantem, sem lamentos nem dramatismo. Afinal, apesar do trabalho que dá, com a preparação da festa do ano seguinte a começar imediatamente a seguir à apresentação de contas da que terminou, esta é uma missão que abraçaram sempre de forma empenhada. “Com o apoio dos nossos maridos e filhos”, fazem questão de realçar, acrescentando que, à conta das festas, “são mesmo muitas as horas ‘roubadas’ às famílias”.

Dar a volta à crise

Em tempo de contenção, a verba para as festas já não é o que era. A autarquia reduziu o seu apoio em três mil euros, comparticipando agora com 12 mil euros. A Junta de Freguesia de Buarcos e, este ano, o Instituto Português da Juventude, também se aliam às festas, sendo que a junta de freguesia liderada por Carlos Moço ajuda ainda na vertente logística, abrindo as suas portas para as reuniões e para guardar material como, aliás, já era feito por anteriores autarcas daquela junta de freguesia, numa demonstração clara do reconhecimento da importância do trabalho da comissão, que está agora a tentar ‘dar a volta por cima’ à questão da diminuição dos apoios financeiros. De passeios a Fátima ou a outros destinos a peditórios pelas ruas da vila de Buarcos, a comissão desdobra-se em actividades ao longo do ano para que, em Setembro, os buarcosenses, os figueirenses em geral e os muitos forasteiros que acorrem às Festas de Nossa Senhora da Encarnação, possam desfrutar de um evento especial. A hipótese de colocar bilheteiras para aumentar a receita já foi pensada, mas a experiência diz a estas mulheres que, em tempo de crise, é melhor franquear a entrada e aumentar o consumo. Ainda assim, com verbas mais curtas, não foi possível evitar os cortes nos gastos com a festa: iluminação e foguetes foram as áreas mais afectadas, a par da redução das atracções principais do espectáculo que, mesmo assim, traz este ano a Buarcos Paulo de Carvalho. “Com os arraiais e bailaricos, a boa-disposição continua garantida”, acreditam, em parte devido ao apoio de peso que têm sentido por parte de empresas e empresários, locais e não só. Assim, os restaurantes Pena Branca, Dory Negro, Adega da Praia, Pôr-do-Sol, Stela Maris e Teimoso, que oferecem as refeições aos grupos participantes, merecem o aplauso e o agradecimento da comissão. A Ierax, que cedeu a manga de plástico com que Buarcos, apesar dos cortes na iluminação festiva, vai encher-se de cor, é outro exemplo do envolvimento das empresas com a festa, que continua a contar também, e desde há muitos anos, com o apoio da Padaria Dionísio. Importante foi também a impressão dos folhetos e cartazes que a Litográfis, de Albufeira, ofereceu à comissão. “Sem estes apoios e sem a contribuição de muita gente nos peditórios e nas iniciativas ao longo do ano, esta festa não seria possível, e não seria também possível assistir à recuperação da Capela”, reconhecem estas nove mulheres. Ainda assim, a comissão apela ao apoio de todos, seja pela participação na festa, seja pela aquisição da medalhinha de ouro de Nossa Senhora da Encarnação ou da imagem de Nossa Senhora, com cerca de 30 centímetros. “Quem estiver interessado pode passar na Junta de Freguesia ou contactar qualquer uma de nós”, explicam, contando com a familiaridade de que a vila de Buarcos ainda goza.

Contas de outro rosário

Quando decidiram ‘pegar’ na festa, já lá vão 17 anos, tinham uma ideia do trabalho que iriam ter. Mas trabalho não é coisa que assuste uma mulher de Buarcos. Ainda assim, os primeiros anos foram os mais buliçosos. Com o tempo, e a confiança adquirida pelo facto de serem, ano após ano, escolhidas para continuarem à frente da organização das festas, foram aprimorando o processo. Hoje, mantêm uma contabilidade organizada que lhes permite apresentar contas cerca de um mês após as festas, com toda a transparência e rigor. Um método que acreditam que devia ser seguido por todas as comissões de festas, mais pelo facto de credibilizar o próprio evento sobretudo junto dos eventuais patrocinadores, do que por qualquer desconfiança sobre a honestidade de quem, por carolice, assume as canseiras de um trabalho destes.
Essencial, sublinham, é a união deste grupo, que ao longo dos anos foi sofrendo pequenas alterações na sua composição. “Algumas pessoas saíram, outras foram entrando, mas sempre funcionámos muito bem todas. Já sabemos a música de cor…”, comentam.

Oração a São Pedro

Para além do apoio da PSP local, que fazem questão de realçar, é fundamental o bom tempo ou que, pelo menos, não chova. Assim, desde que a noite esteja amena, estas mulheres confiam no sucesso de cada uma das iniciativas que compõem o cartaz das festas .

Ainda a procissão vai no adro

Nem só de música, artistas e bailaricos vive esta festa de origens remotas. Conceição Ministro explica que a devoção à Nossa Senhora da Encarnação vem dos tempos em que os pescadores, que partiam para a pesca do bacalhau, àquela capela se dirigiam para pedir a graça de uma boa viagem. No regresso, era também ali que agradeciam, oferecendo objectos que simbolizavam a sua fé. Na Sala dos Milagres, já recuperada, mechas de cabe-los, pernas e braços em cera, medalhinhas e fotografias são o que resta de muitas histórias de sofrimento, de dor, de alegria e de cura. Com o passar dos tempos e a evolução da vi-la, a comunidade piscatória foi diminuindo, mas os habitantes que optavam por outros ofícios ou cujas vidas seguiam outros caminhos mantiveram viva a devoção na Nossa Senhora da Encarnação. Fotografias de jovens a cumprir serviço militar no Ultramar são o registo de outras viagens, tão ou mais temidas do que as que se encetavam em busca do bacalhau, e que motivavam as preces à Santa. Também as pessoas dos campos das proximidades, com o fim das colhei-tas, aproveitavam a festa de Setembro para agradecer e pedir fartura para o ano seguinte.
Tão genuína foi sempre esta devoção que ainda hoje a vertente religiosa da festa vive, em grande parte, da participação voluntária e imprevista das pessoas, que se limitam a pegar nas bandeiras, de outras festas ou de anos anteriores, e incorporam as procissões, que integram paragens para leituras sobre o tema escolhido, que muda todos os anos. Este ano o tema é o da “Capela de Nossa Senhora da Encarnação, ontem e hoje”. As receitas da festa revertem para que haja, também, um amanhã.

Verão com menos animação

“Da Câmara só recebemos até hoje 1.500 euros para limpeza de valas e conservação
de passeios. Nem mais um euro”

Carlos Moço tem a certeza de que “temos muito para fazer aqui em Buarcos, no que diz respeito à melhoria da condição de vida de quem cá reside, e de quem nos visita”.
Em relação ao urbanismo, refere que “há profissionais da construção civil que tratam mal o espaço público, desrespeitam as regras mais elementares, deixando perceber que estão a coberto de uma impunidade consentida por parte, também, da autarquia figueirense”.

Numa breve conversa com o nosso jornal, Carlos Moço mostra a certeza de que são muitas as áreas a intervencionar, na ‘sua’ freguesia. Desde o urbanismo, ao turismo, passando pela vertente social.
O autarca faz um ligeiro balanço do Verão deste ano em Buarcos, criticando a falta de apoios na vertente da animação direccionada à população. “O executivo da Junta ficou sensibilizado por, apesar de tudo, ter-mos conseguido promover alguma animação de Verão. Não aquela que Buarcos merece, por direito, mas a possível”.
Prosseguindo, explica que “é bom que se saiba que até hoje, em termos de transferência de verbas da Câmara para esta Junta, só recebemos 1.500 euros para limpeza de valas e conservação de passeios. Nem um euro a mais para ajudar a animação”, frisando que “no passado assim não foi, nestas e noutras áreas. Isto só acontece quando vivemos acima das nossas possibilidades, e depois há sempre alguém que vai pagar a factura do passado”.
Carlos Moço ressalva aqui que “esta crítica nada a ver com o anterior presidente da Junta, Álvaro Soares, a quem cumprimento e respeito. Tem a ver com políticas camarárias para com algumas juntas de freguesia”.
Neste particular, destaca que “fazemos um esforço enorme, com humildade, para promover a animação não só no centro de Buarcos, mas também na povoação da Serra”, sustentando que “é tempo de reflectir e planificar bem, porque ainda que sem dinheiro é possível fazer mais e melhor”.
Em tempo de homenagem a Nossa Senhora da Encarnação, Carlos Moço afirma que “a Junta de freguesia, como no passado, tem manifestado o apoio na organização dos festejos. O evento é um dos cartazes turísticos mais importantes, tem estatuto próprio e vai ser um grande momento para todos os buarcosenses e quem nos visitar. Dou os meus parabéns à comissão de festas, um grupo de pessoas incansável”.

Verão concorrido, mas sem riqueza comercial

Quanto ao Verão, considera que em Agosto Buarcos “foi visitado por muita gente, o que não significa registo de riqueza para quem opera comercialmente”, isto é, “foram muitos os que escolheram o concelho para passar férias, mas atendendo à crise por que passa o país, o registo comercial, o dinheiro movimentado, ficou aquém das expectativas legítimas dos nossos empresários. A isto concorreu a fraca ou quase nenhuma animação musical, como aconteceu em anos anteriores”.
Ainda assim, diz que “foi dos melhores verões que já tive-mos nos últimos tempos, em termos de temperatura e bem estar, e não podemos pegar um acidente e desvalorizar o resto”, reportando-se aqui às descargas de esgotos para a vala de Buarcos (ver caixa). “Há que avaliar o que temos de melhor e relançar a Figueira da Foz, porque este é dos destinos mais bonitos da nossa costa”.

Projectos em stand by

Quanto a projectos futuros para Buarcos, adianta que o executivo “tem muitos, mas não vale a pena equacioná-los enquanto a autarquia não definir a sua capacidade financeira e apoios para as juntas de freguesia. Pela minha parte, estou disponível para colaborar na contenção financeira, mas em pé igualdade para com as outras juntas”. E garante que “estou e estarei vigilante em relação ao que se passa noutros locais”.

“Espiritualmente muito sentida”

A origem exacta das festas em honra de Nossa Senhora da Encarnação permanece uma incógnita. Ainda que possa haver uma outra teoria, a verdade é que ninguém sabe como tudo começou.
A expressão de fé a Nossa Senhora da Encarnação, em romaria, remonta pelo menos ao século XVII, mas a grande devoção dos pescadores pela Virgem Maria, começou em finais do século XVIII e acabaria por se estender a toda a comunidade piscatória, segundo editou o jornal Diário de Coimbra.
Eram conhecidos como os ‘banhistas de alforge’, porque, no fim das colheitas vinham a banhos, carregados com alforges com os mantimentos e “eram surpreendidos pela celebração litúrgica do nascimento de Nossa Senhora”, a 8 de Setembro, pois a capela situa-se a meio da encosta a caminho da Serra.
O padre de Buarcos Carlos de Noronha, explica que “Nossa Senhora da Encarnação não é evocação dos pescadores, é primeiro descoberta pelos romeiros”.
São os romeiros que trazem dos locais de onde vivem a devoção a Nossa Senhora. “Depois de um fluxo razoável de romarias orientadas pelo Santuário da Senhora da Encarnação”, se começou a estabelecer o costume dos pescadores lhe manifestarem o seu agradecimento. Antes de partirem para o mar, à pesca do bacalhau, iam à festa litúrgica de Nossa Senhora da Boa Viagem, a 2 de Fevereiro, “pedir boa viagem”, e quando regressavam “iam à Nossa Senhora da Encarnação agradecer a boa viagem e a boa pescaria”, refere Carlos Noronha, que salienta que “foi a partir daí, quando começaram a aproximar-se do santuário com este agradecimento, que os outros pescadores daqui começaram a olhar de outra forma para aquele espaço de culto”.
Uma devoção que mais tarde se estendeu aos pescadores de traineira e arrasto, ao ponto de, em cada início de safra (na primeira vez que iam ao mar) “voltarem o barco para a capela da Senhora da Encarnação e rezarem uma Avé-Maria”, porque até aí, os pescadores tinham grande devoção a Nossa Senhora da Conceição, mas não a Nossa Senhora da Encarnação.
Nesta história repleta de estórias, reside uma certeza existe: a festa atrai milhares de pessoas, uma adesão que o pároco de Buarcos atribui à fervorosa religiosidade popular e à grande devoção que os portugueses têm por Nossa Senhora. Outro factor que poderá estar na origem desta enchente por altura das festas, é o facto de se ter mudado o dai da procissão para o domingo. Antigamente, a procissão tinha lugar no dia 8 de Setembro, independentemente do dia da semana em que calhasse.
Mas Carlos Noronha garante que a fase de preparação da festa é “espiritualmente muito sentida”, uma postura popular que ajuda a manter esta festa religiosa, transportando-a ao longo dos anos.

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