|
|

- REPORTAGEM
Homenagem
à Senhora da Encarnação
Até
domingo, Buarcos recebe as Festas em Honra de Nossa Senhora da Encarnação.
Do programa festivo, destaque para a actuação de Paulo
de Carvalho e sua Banda, sábado, a partir das 23h00.
As festas agregam em si uma forte componente religiosa, na medida
em que a receita apurada reverte para a requalificação
da Capela de Nossa Senhora da Encarnação.
Ontem à noite saiu à rua a Procissão das Velas
com saudação à Virgem, e domingo, às
16h30, terá lugar uma solene eucaristia no largo em frente
à capela, seguida de procissão acompanhada por duas
filarmónicas. Hoje, amanhã e domingo, sempre a partir
das 21h30, o espaço recebe arraiais com música ao
vivo.
A comissão de festas de Nossa Senhora da Encarnação
desdobra-se para que nada falhe e para que o pequeno templo possa
ser renovado.
De Buarcos, de todo o concelho e até de fora, chegam pessoas
para assistir, participar e tornar mais rico este momento alto da
vida da vila, que alia o sagrado e o profano de uma forma tipicamente
portuguesa.
Este é o mais vivo sentimento e fé de um povo que,
ano após ano, se renova.
Receitas
da festa revertem para recuperar a Capela
Conceição
Ministro São Marcos, Maria Ivone Lopes Silva, Lucinda Basílio,
Conceição Grilo Mano, Maria José Lourenço
dos Santos, Ana Bela Reis Redondo, Maria Licínia Ministro,
Olívia Maria Coelho Rolo e Conceição da Silva
Banca. São actualmente em número de nove as mulheres
que constituem a comissão de festas da Senhora da Encarnação.
E há muito para fazer.
O principal objectivo destas mulheres é conseguir, com a
receita da festa, contribuir para a recuperação da
Capela de Nossa Senhora da Encarnação. Ano após
ano, congratulam-se por faltar um bocadinho menos do muito que é
necessário para devolver àquele espaço de culto
a dignidade que a devoção das gentes de Buarcos exige.
De entre as obras que urgem, as mulheres realçam, com sentido
prático, a reparação do pedaço de chão
em pior estado, intervenção que, sozinha, deve rondar
os três mil euros. Uma verba que terá de repetir-se
ainda por muitos anos, até que o madeiramento do tecto, o
douramento dos altares e os acabamentos vários possam dar
por recuperada a capela. “Há trabalho para muitos anos”,
garantem, sem lamentos nem dramatismo. Afinal, apesar do trabalho
que dá, com a preparação da festa do ano seguinte
a começar imediatamente a seguir à apresentação
de contas da que terminou, esta é uma missão que abraçaram
sempre de forma empenhada. “Com o apoio dos nossos maridos e filhos”,
fazem questão de realçar, acrescentando que, à
conta das festas, “são mesmo muitas as horas ‘roubadas’ às
famílias”.
Dar
a volta à crise
Em
tempo de contenção, a verba para as festas já
não é o que era. A autarquia reduziu o seu apoio em
três mil euros, comparticipando agora com 12 mil euros. A
Junta de Freguesia de Buarcos e, este ano, o Instituto Português
da Juventude, também se aliam às festas, sendo que
a junta de freguesia liderada por Carlos Moço ajuda ainda
na vertente logística, abrindo as suas portas para as reuniões
e para guardar material como, aliás, já era feito
por anteriores autarcas daquela junta de freguesia, numa demonstração
clara do reconhecimento da importância do trabalho da comissão,
que está agora a tentar ‘dar a volta por cima’ à questão
da diminuição dos apoios financeiros. De passeios
a Fátima ou a outros destinos a peditórios pelas ruas
da vila de Buarcos, a comissão desdobra-se em actividades
ao longo do ano para que, em Setembro, os buarcosenses, os figueirenses
em geral e os muitos forasteiros que acorrem às Festas de
Nossa Senhora da Encarnação, possam desfrutar de um
evento especial. A hipótese de colocar bilheteiras para aumentar
a receita já foi pensada, mas a experiência diz a estas
mulheres que, em tempo de crise, é melhor franquear a entrada
e aumentar o consumo. Ainda assim, com verbas mais curtas, não
foi possível evitar os cortes nos gastos com a festa: iluminação
e foguetes foram as áreas mais afectadas, a par da redução
das atracções principais do espectáculo que,
mesmo assim, traz este ano a Buarcos Paulo de Carvalho. “Com os
arraiais e bailaricos, a boa-disposição continua garantida”,
acreditam, em parte devido ao apoio de peso que têm sentido
por parte de empresas e empresários, locais e não
só. Assim, os restaurantes Pena Branca, Dory Negro, Adega
da Praia, Pôr-do-Sol, Stela Maris e Teimoso, que oferecem
as refeições aos grupos participantes, merecem o aplauso
e o agradecimento da comissão. A Ierax, que cedeu a manga
de plástico com que Buarcos, apesar dos cortes na iluminação
festiva, vai encher-se de cor, é outro exemplo do envolvimento
das empresas com a festa, que continua a contar também, e
desde há muitos anos, com o apoio da Padaria Dionísio.
Importante foi também a impressão dos folhetos e cartazes
que a Litográfis, de Albufeira, ofereceu à comissão.
“Sem estes apoios e sem a contribuição de muita gente
nos peditórios e nas iniciativas ao longo do ano, esta festa
não seria possível, e não seria também
possível assistir à recuperação da Capela”,
reconhecem estas nove mulheres. Ainda assim, a comissão apela
ao apoio de todos, seja pela participação na festa,
seja pela aquisição da medalhinha de ouro de Nossa
Senhora da Encarnação ou da imagem de Nossa Senhora,
com cerca de 30 centímetros. “Quem estiver interessado pode
passar na Junta de Freguesia ou contactar qualquer uma de nós”,
explicam, contando com a familiaridade de que a vila de Buarcos
ainda goza.
Contas
de outro rosário
Quando decidiram ‘pegar’ na festa, já lá vão
17 anos, tinham uma ideia do trabalho que iriam ter. Mas trabalho
não é coisa que assuste uma mulher de Buarcos. Ainda
assim, os primeiros anos foram os mais buliçosos. Com o tempo,
e a confiança adquirida pelo facto de serem, ano após
ano, escolhidas para continuarem à frente da organização
das festas, foram aprimorando o processo. Hoje, mantêm uma
contabilidade organizada que lhes permite apresentar contas cerca
de um mês após as festas, com toda a transparência
e rigor. Um método que acreditam que devia ser seguido por
todas as comissões de festas, mais pelo facto de credibilizar
o próprio evento sobretudo junto dos eventuais patrocinadores,
do que por qualquer desconfiança sobre a honestidade de quem,
por carolice, assume as canseiras de um trabalho destes.
Essencial, sublinham, é a união deste grupo, que ao
longo dos anos foi sofrendo pequenas alterações na
sua composição. “Algumas pessoas saíram, outras
foram entrando, mas sempre funcionámos muito bem todas. Já
sabemos a música de cor…”, comentam.
Oração
a São Pedro
Para além do apoio da PSP local, que fazem questão
de realçar, é fundamental o bom tempo ou que, pelo
menos, não chova. Assim, desde que a noite esteja amena,
estas mulheres confiam no sucesso de cada uma das iniciativas que
compõem o cartaz das festas .
Ainda
a procissão vai no adro
Nem só de música, artistas e bailaricos vive esta
festa de origens remotas. Conceição Ministro explica
que a devoção à Nossa Senhora da Encarnação
vem dos tempos em que os pescadores, que partiam para a pesca do
bacalhau, àquela capela se dirigiam para pedir a graça
de uma boa viagem. No regresso, era também ali que agradeciam,
oferecendo objectos que simbolizavam a sua fé. Na Sala dos
Milagres, já recuperada, mechas de cabe-los, pernas e braços
em cera, medalhinhas e fotografias são o que resta de muitas
histórias de sofrimento, de dor, de alegria e de cura. Com
o passar dos tempos e a evolução da vi-la, a comunidade
piscatória foi diminuindo, mas os habitantes que optavam
por outros ofícios ou cujas vidas seguiam outros caminhos
mantiveram viva a devoção na Nossa Senhora da Encarnação.
Fotografias de jovens a cumprir serviço militar no Ultramar
são o registo de outras viagens, tão ou mais temidas
do que as que se encetavam em busca do bacalhau, e que motivavam
as preces à Santa. Também as pessoas dos campos das
proximidades, com o fim das colhei-tas, aproveitavam a festa de
Setembro para agradecer e pedir fartura para o ano seguinte.
Tão genuína foi sempre esta devoção
que ainda hoje a vertente religiosa da festa vive, em grande parte,
da participação voluntária e imprevista das
pessoas, que se limitam a pegar nas bandeiras, de outras festas
ou de anos anteriores, e incorporam as procissões, que integram
paragens para leituras sobre o tema escolhido, que muda todos os
anos. Este ano o tema é o da “Capela de Nossa Senhora da
Encarnação, ontem e hoje”. As receitas da festa revertem
para que haja, também, um amanhã.
Verão
com menos animação
“Da
Câmara só recebemos até hoje 1.500 euros para
limpeza de valas e conservação
de passeios. Nem mais um euro”
Carlos
Moço tem a certeza de que “temos muito para fazer aqui em
Buarcos, no que diz respeito à melhoria da condição
de vida de quem cá reside, e de quem nos visita”.
Em relação ao urbanismo, refere que “há profissionais
da construção civil que tratam mal o espaço
público, desrespeitam as regras mais elementares, deixando
perceber que estão a coberto de uma impunidade consentida
por parte, também, da autarquia figueirense”.
Numa
breve conversa com o nosso jornal, Carlos Moço mostra a certeza
de que são muitas as áreas a intervencionar, na ‘sua’
freguesia. Desde o urbanismo, ao turismo, passando pela vertente
social.
O autarca faz um ligeiro balanço do Verão deste ano
em Buarcos, criticando a falta de apoios na vertente da animação
direccionada à população. “O executivo da Junta
ficou sensibilizado por, apesar de tudo, ter-mos conseguido promover
alguma animação de Verão. Não aquela
que Buarcos merece, por direito, mas a possível”.
Prosseguindo, explica que “é bom que se saiba que até
hoje, em termos de transferência de verbas da Câmara
para esta Junta, só recebemos 1.500 euros para limpeza de
valas e conservação de passeios. Nem um euro a mais
para ajudar a animação”, frisando que “no passado
assim não foi, nestas e noutras áreas. Isto só
acontece quando vivemos acima das nossas possibilidades, e depois
há sempre alguém que vai pagar a factura do passado”.
Carlos Moço ressalva aqui que “esta crítica nada a
ver com o anterior presidente da Junta, Álvaro Soares, a
quem cumprimento e respeito. Tem a ver com políticas camarárias
para com algumas juntas de freguesia”.
Neste particular, destaca que “fazemos um esforço enorme,
com humildade, para promover a animação não
só no centro de Buarcos, mas também na povoação
da Serra”, sustentando que “é tempo de reflectir e planificar
bem, porque ainda que sem dinheiro é possível fazer
mais e melhor”.
Em tempo de homenagem a Nossa Senhora da Encarnação,
Carlos Moço afirma que “a Junta de freguesia, como no passado,
tem manifestado o apoio na organização dos festejos.
O evento é um dos cartazes turísticos mais importantes,
tem estatuto próprio e vai ser um grande momento para todos
os buarcosenses e quem nos visitar. Dou os meus parabéns
à comissão de festas, um grupo de pessoas incansável”.
Verão concorrido, mas sem riqueza comercial
Quanto ao Verão, considera que em Agosto Buarcos “foi visitado
por muita gente, o que não significa registo de riqueza para
quem opera comercialmente”, isto é, “foram muitos os que
escolheram o concelho para passar férias, mas atendendo à
crise por que passa o país, o registo comercial, o dinheiro
movimentado, ficou aquém das expectativas legítimas
dos nossos empresários. A isto concorreu a fraca ou quase
nenhuma animação musical, como aconteceu em anos anteriores”.
Ainda assim, diz que “foi dos melhores verões que já
tive-mos nos últimos tempos, em termos de temperatura e bem
estar, e não podemos pegar um acidente e desvalorizar o resto”,
reportando-se aqui às descargas de esgotos para a vala de
Buarcos (ver caixa). “Há que avaliar o que temos de melhor
e relançar a Figueira da Foz, porque este é dos destinos
mais bonitos da nossa costa”.
Projectos em stand by
Quanto a projectos futuros para Buarcos, adianta que o executivo
“tem muitos, mas não vale a pena equacioná-los enquanto
a autarquia não definir a sua capacidade financeira e apoios
para as juntas de freguesia. Pela minha parte, estou disponível
para colaborar na contenção financeira, mas em pé
igualdade para com as outras juntas”. E garante que “estou e estarei
vigilante em relação ao que se passa noutros locais”.
“Espiritualmente muito sentida”
A
origem exacta das festas em honra de Nossa Senhora da Encarnação
permanece uma incógnita. Ainda que possa haver uma outra
teoria, a verdade é que ninguém sabe como tudo começou.
A expressão de fé a Nossa Senhora da Encarnação,
em romaria, remonta pelo menos ao século XVII, mas a grande
devoção dos pescadores pela Virgem Maria, começou
em finais do século XVIII e acabaria por se estender a toda
a comunidade piscatória, segundo editou o jornal Diário
de Coimbra.
Eram conhecidos como os ‘banhistas de alforge’, porque, no fim das
colheitas vinham a banhos, carregados com alforges com os mantimentos
e “eram surpreendidos pela celebração litúrgica
do nascimento de Nossa Senhora”, a 8 de Setembro, pois a capela
situa-se a meio da encosta a caminho da Serra.
O padre de Buarcos Carlos de Noronha, explica que “Nossa Senhora
da Encarnação não é evocação
dos pescadores, é primeiro descoberta pelos romeiros”.
São os romeiros que trazem dos locais de onde vivem a devoção
a Nossa Senhora. “Depois de um fluxo razoável de romarias
orientadas pelo Santuário da Senhora da Encarnação”,
se começou a estabelecer o costume dos pescadores lhe manifestarem
o seu agradecimento. Antes de partirem para o mar, à pesca
do bacalhau, iam à festa litúrgica de Nossa Senhora
da Boa Viagem, a 2 de Fevereiro, “pedir boa viagem”, e quando regressavam
“iam à Nossa Senhora da Encarnação agradecer
a boa viagem e a boa pescaria”, refere Carlos Noronha, que salienta
que “foi a partir daí, quando começaram a aproximar-se
do santuário com este agradecimento, que os outros pescadores
daqui começaram a olhar de outra forma para aquele espaço
de culto”.
Uma devoção que mais tarde se estendeu aos pescadores
de traineira e arrasto, ao ponto de, em cada início de safra
(na primeira vez que iam ao mar) “voltarem o barco para a capela
da Senhora da Encarnação e rezarem uma Avé-Maria”,
porque até aí, os pescadores tinham grande devoção
a Nossa Senhora da Conceição, mas não a Nossa
Senhora da Encarnação.
Nesta história repleta de estórias, reside uma certeza
existe: a festa atrai milhares de pessoas, uma adesão que
o pároco de Buarcos atribui à fervorosa religiosidade
popular e à grande devoção que os portugueses
têm por Nossa Senhora. Outro factor que poderá estar
na origem desta enchente por altura das festas, é o facto
de se ter mudado o dai da procissão para o domingo. Antigamente,
a procissão tinha lugar no dia 8 de Setembro, independentemente
do dia da semana em que calhasse.
Mas Carlos Noronha garante que a fase de preparação
da festa é “espiritualmente muito sentida”, uma postura popular
que ajuda a manter esta festa religiosa, transportando-a ao longo
dos anos.
......................................................................................................
|