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16 Fevereiro/2007  
Ano 88º  
Edição N.º 5495  
 
  CRÓNICAS

A Ditadura da Felicidade

Deambulo na livraria vislumbrando as prateleiras, observando, curiosa, o significativo aumento de títulos de “auto-ajuda”, que em torno de conselhos, ditames e ponderações, sugerem caminhos para alcançar a felicidade. Será isso sinal de que anda-mos mais tristes? Porquê, então, esta urgência em estar feliz? Por que, desesperadamente, fugimos à tristeza, muitas vezes mascarando-a com pílulas ou estranhos sorrisos, adiando confrontos e ignorando sinais?
Não obstante, esta pressão para sermos felizes faz-me apreciar a tristeza. Aliás, sobrevoando a minha vida, verifico que é sobretudo pelo sofrimento que tenho crescido, e muito daquilo que sou hoje e do qual me orgulho, devo-o à vivência do sofrimento. Nem sequer consigo imaginar uma vida sem sofrimento ou, quando quase consigo, imagino uma história particularmente insípida.
Aquelas que nos fascinam e que nos alumiam reflectem, quase sempre, narrativas sobre a adversidade; a luta, a força que encontramos, as lições que tiramos fluem, não raras vezes, das contrariedades da vida. Ainda que as conquistas e os ganhos constituam alicerces da felicidade, os caminhos para tal são calcorreados pé ante pé.
Então, porque camuflamos o sofrimento?
Naturalmente, porque nos amargura. Mas, mais do que isso, porque socialmente tal estado constitui uma ameaça, um sinal de algum insucesso, social ou afectivo. Desse modo, veremos sofrimentos mais legítimos que outros, os quais não desejamos transparecer. Seguros daqueles que nobres assumem a sua tristeza, não receando uma crítica menor de quem do alto observa. Ainda que pareça que a sociedade não espera por nós enquanto sofremos, ela continua lá quando nos erguermos. Precisamos, contudo, de viver a dor para poder continuar. E este modo de viver a dor, por mais objectiva que esta seja, é sempre subjectivo. Vemos, assim, uma multiplicidade expressiva de “dizer a dor”, retrato da natureza dialógica e metafórica (narrativa) do Ser humano.
A metáfora como um veículo necessário para libertar o indivíduo do sofrimento que o absorve. A importância de expressar a dor, seja pela arte, pelo ofício, pela dança, pela música, pela escrita, pela leitura, pelo pensamento, ou mesmo pela inactividade, relaciona-se com uma integridade humana e social necessária, porque ao narrar este sofrimento estruturamos, damos um sentido à dor e, através desta narração, organizamos a experiência na nossa trajectória de vida. Damos um lugar à experiência donde ela nos possa falar um pouco do mundo para nele podermos viver.
Assim, este “falar (d)a dor”, ou pôr a dor a falar, no sentido de a externalizar, é estruturante e adiar ou camuflar esta necessidade pode dificultar um continuar. Com ou sem ajuda profissional, quase sempre beneficiamos da disponibilidade dos que nos são próximos, para devagar, devagarinho irmo-nos erguendo, ao nosso ritmo, sem pressas ou ilusões de que a vida deve ser uma felicidade constante.

 

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