Director:  
30 Junho/2006  
Ano 88º  
Edição N.º 5465  
 
 
  REPORTAGEM

Uma eventual venda do quartel com fins urbanísticos esbarra no PDM

O adeus ao quartel

O encerramento, hoje, da Escola Prática de Serviços de Transportes (EPST) da Figueira da Foz põe fim a cerca de cem anos de presença militar efectiva na cidade.
O fecho irreversível da unidade e consequente ausência do Exército na Figueira deixa um sentimento de perda nos antigos militares e no presidente da Câmara.

A EPST está estabelecida desde 1977 no quartel da Lapa – situado num morro sobranceiro ao rio e à zona antiga da localidade – tendo, ao longo de quase 30 anos de actividade, formado mais de 40 mil condutores militares de diversas viaturas, entre as quais as de transporte de materiais perigosos.
A Escola Prática, que possui como lema “Ensinar para Bem Servir”, sucedeu naquele local ao Regimento de Artilharia Pesada (RAP 3) que teve papel importante na Revolução de Abril de 1974.
Na madrugada de 25 de Abril de 1974 uma bateria do Regimento de Artilharia Pesada 3, duas colunas de Infantaria de Aveiro e Viseu e uma companhia do CICA 2, formam o Agrupamento Militar Norte e, comandados pelo então capitão Dinis de Almeida, “marcham” da Lapa em direcção ao Forte de Peniche, e depois a Lisboa.
“Na Figueira havia poucos oficiais afectos ao Movimento das Forças Armadas. Abalámos de Águeda quando ouvimos a senha de confirmação, chegámos aqui e ficámos no quartel” recordou à Agência Lusa Góis Moço, um dos oficiais revoltosos, hoje coronel na reserva e antigo comandante da EPST.
Aos 60 anos, Góis Moço lamenta o encerramento do quartel que comandou entre 1997 e 2000, considerando-o uma perda para a cidade.
“É com imensa tristeza e alguma dor que o vejo encerrar. E uma perda muito grande, o Exército viu crescer a cidade e cresceu com a cidade” sublinha.
Na altura em que comandou a EPST a guarnição do quartel rondava os 900 homens, entre oficiais, sargentos e praças, encontrando-se hoje reduzida a pouco mais de centena e meia de elementos, a maioria militares mas também civis.
Góis Moço lembra que a EPST foi “pioneira” na aplicação de medidas relacionadas com o ensino da condução, das quais destaca os exames psicotécnicos “eliminatórios e prévios à condução”, a disciplina de prevenção e segurança rodoviária, introduzida no início dos anos 90 e um parque de manobras “a funcionar no estrito cumprimento da lei”.

Formação específica para a Bósnia ou Timor Leste

Destaca ainda a “rigorosa selecção” dos instruendos formados pela EPST, que aprendiam a conduzir diversos tipos de veículos – dos pesados, aos articulados, autocarros e de trans-porte de materiais perigosos. Ali foram formados, igualmente, condutores para missões específicas do Exército português na Bósnia ou Timor-Leste, entre outros locais.
É preciso recuar até finais do século XIX, poucos anos após a elevação da Figueira da Foz a cidade, para assistir à chegada dos primeiros militares à zona do Pinhal, onde foi construído um primeiro quartel, hoje desactivado.
Por ali passaram até 1975, meios de Artilharia e Infantaria – o primeiro soldado português morto na I Grande Guerra pertencia à Infantaria 28, ali instalada – tendo o quartel passado a coexistir com o da Lapa, em 1939, ano da sua abertura.
Ao longo dos anos foram várias as transferências e extinções em ambas as unidades, culminando, em 1975, com o fecho da Companhia de Instrução e Condução Automóvel (CICA 2) e consequente desactivação do quartel do Pinhal em cujos terrenos está hoje instalada a PSP e a Universidade Internacional.
Já o quartel da Lapa começou por ocupar, em 1939, sensivelmente dois terços da área de cerca de dez hectares que hoje ocupa.
No final da década de 40, antecipando a adesão de Portugal à NATO (1955) dá-se a expansão das instalações, com a expropriação dos terrenos do antigo bairro da Lapa, no âmbito da reestruturação do Exército protagonizada por Santos Costa, ministro da Guerra de Salazar.

Reflexos na sociedade civil

Para além dos aspectos operacionais, o fecho do quartel tem, segundo o antigo comandante Góis Moço, reflexos na relação da instituição militar com a sociedade civil, sustentada, entre outros aspectos, pelos Encontros de Arte, regularmente promovidos pela EPST desde meados da década de 90.
“Para além daquilo que era produzido nos encontros de arte e aquilo que estes representavam de abertura à sociedade civil, há todo um património de relações afectivas e empatia com a cidade que se perde” afirma Góis Moço.
Do acervo resultante dos encontros, espalhado pelas instalações da EPST, constam mais de 300 peças, entre pintura e escultura, produzidas por dezenas de artistas.
“O (artista plástico) Mário Silva foi um dos grandes impulsionadores dos encontros. Entre vários pintores recebe-mos o moçambicano Malangatana que ofereceu um quadro ao quartel”, recorda.
Já um simpósio de escultura, organizado durante 15 dias dentro da unidade militar, levou vários escultores a trabalhar ao vivo, perante o entusias-mo dos militares da guarnição.
Há mais de 50 anos, António Guedes, beirão natural de Pomares, distrito da Guarda, chegou à Figueira da Foz para cumprir o serviço militar.
Foi, indirectamente, a unidade da Lapa que lhe garantiu o sustento, quando, em 1954, decidiu adquirir um pequeno restaurante, situado rua abaixo, a poucas centenas de metros do quartel.
Terminada a tropa, onde servia na cantina, e desafiado pelos camaradas, acabou por adquirir a Casa do Barril, onde os companheiros de armas rumavam: “Comiam e bebiam, naqueles tempos viviam melhor”, garante. O ‘Barril’ manteve a actividade até Guedes trocar as mesas de refeição por outras, de bilhar, num café homónimo de que foi proprietário durante três décadas.
Mas a clientela manteve-se, apesar da mudança: “Todos os militares me conheciam, caíam todos aqui. Se não fosse assim, não tinha ficado na Figueira”, garante hoje, com 75 anos, três filhos e três netos.

O papel da autarquia

Duarte Silva, o social-democrata que preside à autarquia local, lamenta igualmente o fecho da EPST: “Tenho pena, pessoalmente e como presidente da Câmara que a Figueira da Foz deixe de ter uma unidade militar”, frisou.
Quanto a uma eventual alienação daquele património por parte do Exército, avisa que o Plano Director Municipal (PDM) define a área como equipamento, classificação que a autarquia pretende manter.
“Continuo a defender que seja equipamento. Foi a posição que defendi enquanto presidente da Assembleia Municipal (há dois mandatos) e mantenho-a”, disse.
Assim, uma eventual venda do quartel com fins urbanísticos, por exemplo, esbarra no PDM.
“Só podia ser fonte de receita para o Exército se a Câmara mudasse a classificação. Não fomos vistos nem achados (na decisão de encerrar), não propusemos nenhuma alteração ao PDM, nada ali pode ser feito que não seja entendido ser do interesse do município”, sublinhou.
Com o encerramento da EPST os militares deverão ser transferidos para a Póvoa de Varzim e Estremoz, podendo o edifício vir a concentrar os centros de formação de Aveiro e Portalegre da GNR, embora não exista ainda uma decisão final.
A reportagem da Agência Lusa tentou obter declarações do actual comandante da EPST, coronel Silva Loureiro, relacionadas com o encerramento das instalações, mas não foi autorizada nesse propósito pelo Estado-Maior do Exército.

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Capital de risco é uma das mais-valias

Licenciamento industrial diferencia Incubadora da Figueira da Foz


Foi esta quarta-feira inaugurada a Incubadora de Empresas da Figueira da Foz (IEFF), um projecto que resulta da parceria firmada entre a Associação Comercial e Industrial da Figueira da Foz (ACIFF) e a Câmara Municipal da Figueira da Foz (CMFF).
Orçada em 2,1 milhões de euros, um valor que integra a comparticipação de cerca de um milhão e 200 mil euros de fundos comunitários, a IEFF contou com a presença, na inauguração, do secretário de Estado adjunto da Indústria e da Inovação, António Castro Guerra, dos presidentes da autarquia e da ACIFF, Duarte Silva e Fernando Cardoso, e de inúmeros empresários da região.

Choque tecnológico

Preparada, numa primeira fase, para acolher entre seis a 10 empresas, de cariz predominantemente de base tecnológica e prestadoras de serviços de significativo valor acrescentado, a IEFF pretende proporcionar mais do que o espaço físico (no Parque Industrial da Gala).
Desde áreas de serviços comuns (sala de serviços partilhados, sala de reuniões, salas de formação, auditório, bar/cafetaria; refeitório, recepção, etc.) a espaços administrativos e de gestão, passando por apoio a diversos níveis e pela promoção da troca de experiências, a IEFF está ainda a estabelecer inúmeros contactos no sentido de aumentar a ligação a instituições de ensino superior.

O futuro começa agora

Fernando Cardoso sublinhou o longo caminho percorrido e as maiores exigências do futuro que está a começar, destacando como uma das grandes mais-valias da IEFF, em relação às suas congéneres da zona centro (com as quais irá trabalhar em rede), o facto de “as empresas industriais aqui em incubação reunirem as condições para requererem e obterem o respectivo licenciamento industrial”. Outra vantagem que a IEFF quer proporcionar às empresas que ali se instalarem por um período de três anos é o de poderem candidatar-se ao apoio financeiro muitas vezes necessário no início de vida das pequenas empresas. “A IEFF já celebrou um protocolo com a PME Capital – Sociedade Portuguesa de Capital de Risco, S.A. e o IAPMEI, no âmbito do Programa FINI-CIA, tendo em vista facilitar o acesso ao capital para financiar negócios emergentes de pequena escala com origem nesta incubadora”, anunciou Fernando Cardoso.
Três anos, e não mais
“Peço-vos que sejam implacáveis em relação ao prazo da incubação: três anos e ponto final, haja ou não sucesso. Uma incubadora é feita para ‘rodar’. Conheço incubadoras onde as empresas ganham penas… mas nunca chegam a voar”, alertou Castro Guerra na sua intervenção. A chamada de atenção seguiu-se ao felicitar das entidades envolvidas pelo projecto inaugurado, e à promessa de seguir atentamente todo o processo, nomeadamente no sentido de facilitar o cabal pagamento dos incentivos por parte do Estado, numa resposta a uma solicitação anterior do presidente da ACIFF. O secretário de Estado mostrou-se confiante no potencial de sucesso da zona centro, cuja policentricidade acredita poder ser uma “vantagem, dentro de uma lógica de funcionamento em rede”.

Andreia Gouveia

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Primeiro corpo apareceu na Figueira

Ex-GNR considerado como “serial killer”

Encontra-se em prisão preventiva o presumível assassino de três raparigas entre os 16 e os 18 anos, desaparecidas na zona de Santa Comba Dão, detido pela Polícia Judiciária de Coimbra.
O homem, de 53 anos e residente em Santa Comba Dão, foi na passada sexta-feira presente ao Tribunal da Figueira da Foz.
Suspeita-se que tenha assassinado pelo menos três jovens, mas a PJ admite que possam ser quatro ou mais, disse à Lusa o sub-director nacional da PJ, Almeida Rodrigues.

O desaparecimento das três raparigas deu-se em 24 de Maio de 2005, em Novembro do mesmo ano e em 8 de Maio de 2006.
A primeira vítima já identificada não foi abrangida pelas investigações da Directoria de Coimbra da PJ, dado que os pais, julgando que ela tinha emigrado para França, não participaram o desaparecimento.
O desaparecimento de uma segunda jovem em Novembro de 2005 desencadeou uma investigação policial, com os agentes a procurarem, numa primeira fase “estabelecer o perfil” do presumível homicida.
“Muito cedo suspeitámos estar perante um homicida em série (“serial killer”)”, adiantou Almeida Rodrigues à agência Lusa.
Um dos corpos foi encontrado no molhe sul, junto à praia, do Cabedelo em 31 de Maio de 2005, e “está claramente identificado”.
Há algumas semanas, uma parte de um outro corpo apareceu nas águas da barragem do Coiço, em Penacova, decorrendo os normais processos de identificação.
No sábado passado, o corpo de uma mulher foi encontrado na barragem da Aguieira, próximo de Penacova, e a Polícia Judiciária admitiu que pode tratar-se de uma das três jovens alegadamente assassinadas pelo ex-militar da GNR.
Segundo Almeida Rodrigues, há uma “grande probabilidade” de o corpo encontrado ser o cadáver de uma das três jovens alegadamente assassinadas.

Revolta popular

Exactamente seis horas depois de ter entrado no Tribunal da Figueira da Foz, António Costa saiu para ficar em prisão preventiva, resguardado por um forte dispositivo policial.
A pacata cidade da Figueira da Foz nunca vira nada assim.
Quando a cidade se preparava para viver o S. João, o tema das conversas pelas ruas e cafés era “o assassino de Santa Comba Dão”. As marchas populares deixaram de ter qualquer importância, e a romaria ao Tribunal da Figueira da Foz começou a tomar corpo logo que se soube da detenção do cabo reformado da GNR.
A audiência estava marcada para as 14h00 de sexta-feira passada e minutos depois o jardim municipal fronteiriço ao tribunal começava a receber pessoas de várias idades. Na sua maioria pais e mães que ali manifestavam a sua revolta perante o caso.
Uma hora depois, eram já cerca de três dezenas os curiosos que ali esperavam, ao sol, pelo “assassino”, conforme diziam alto e em bom som. O aparato não deixava ninguém indiferente. Uma multidão de jornalistas, com as máquinas em punho, esperava o alegado criminoso. Ao seu lado, as equipas de televisão aprestavam-se a escolher o melhor local para apanhar “aquela” imagem.
Neste tempo, questiona-se tudo e todos. “Quem é?”, perguntavam uns, na esperança de, talvez, reconhecerem o rosto de um homem agora indiciado de cometer hediondos crimes e que abala uma cidade nada habituada a estes alegados crimes violentos.
Os boatos voavam rápido, e uns diziam que ele era da Figueira, outros de Coimbra, enquanto que os mais atentos davam as explicações: “ouvi nas notícias que ele é de Santa Comba Dão”.
Às 16h00 a multidão já tinha engrossado mais um pouco, quase que vedando a entrada do Tribunal da Figueira. Às 16h14 dois homens ladeavam um outro, calmamente, indo em direcção à entrada do Tribunal. A escassos metros da porta o rosto foi coberto por um casaco. “É ele!”, ouviu-se logo de uma série de pessoas.
À pressa, e empurrando as pessoas à frente da porta, o alegado agressor foi introduzido no Tribunal da Figueira, escoltado por dois agentes da Polícia Judiciária.
Fora do tribunal exaltaram-se logo os ânimos. “Assassino”, “merecias era a morte”, gritaram duas senhoras visivelmente alteradas com a situação.
Maria Anunciação, figueirense, acompanhada por mais duas amigas, saíram de casa logo que as notícias correram, ali mesmo ao lado. “Ainda o tentámos agarrar para fazer justiça com as próprias mãos”, explicaram-nos já mais calmas.
Também Pedro Osório deixava comentários exaltados: “se fosse a minha filha não havia polícia que me agarrasse. Fazia-lhe a folha aqui mesmo”.
Outros juntaram-se ao grupo e, na tentativa infrutífera de entrar no Tribunal, deixavam transparecer um sentimento de revolta e ódio: “merecia era a morte. Se a lei fosse mais dura, nada disto acontecia”. Paulo Mesquita, mais contido nas expressões, dizia só que “por estas e por outras é que defendo a pena de morte”.

“Nunca desconfiei dele”

Pela tarde fora, o povo não arredava pé. Muitos iam-se embora, mas voltavam mais tarde, para ver se já havia novidades. Sempre que a porta do Tribunal se abria, todos os olhares eram para ali canalizados. “Ainda não é desta...”, ouvia dizer-se.
Ao longo da tarde, esteve à porta do Tribunal, visivelmente consternado, Vasco Borges, tio de Joana Oliveira, a rapariga ainda dada como desaparecida.
O cabo da GNR era seu conhecido. “Nunca desconfiei dele. Ainda na quarta-feira passada (dia 21) perguntou ao meu cunhado se já sabia algo da Joana”, disse a O Figueirense, acreditando que “não agiu sozinho”.
Sensivelmente às 21h00, começou a notar-se uma movimentação a que a Figueira da Foz não está habituada. Uma carrinha do Corpo de Intervenção da PSP parava no local, deixando sair vários elementos desta força policial. Depois ou-tra, e outra, e ainda mais outra. Os cerca de 30 polícias iam-se colocando estrategicamente nas imediações do Tribunal. Os agentes da Polícia Judiciária entravam e saiam, e a ânsia pelo desfecho do caso aumentava. Poucos minutos depois das 22h00, a PSP começou a formar uma barreira. “Ele vem aí”, diziam todos.
A rua foi encerrada ao trânsito automóvel, e os populares e profissionais da comunicação social afastados. Às 22h15, António Costa sai escoltado pela PJ, entra numa viatura descaracterizada e arranca a toda a velocidade. Breves segundos em que os gritos e revolta popular tudo dominou. “Assassino! Deviam era fazer-te o mesmo, lá na cadeia!”, diziam uns. “Monstro”, gritavam outros sem perceber o móbil dos seus actos.
Às 22h30 a escrivã auxiliar do Tribunal da Figueira leu uma parca declaração.
António Costa foi indiciado por uma juíza do Tribunal da Figueira da Foz por três crimes de homicídio qualificado, e outros três por ocultação de cadáver, ficando a aguardar julgamento em prisão preventiva.
O móbil do alegado crime permanece em segredo de justiça.

Jorge Lemos com Lusa

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