|
|

- REPORTAGEM
Uma
eventual venda do quartel com fins urbanísticos esbarra no
PDM
O
adeus ao quartel
O
encerramento, hoje, da Escola Prática de Serviços
de Transportes (EPST) da Figueira da Foz põe fim a cerca
de cem anos de presença militar efectiva na cidade.
O fecho irreversível da unidade e consequente ausência
do Exército na Figueira deixa um sentimento de perda nos
antigos militares e no presidente da Câmara.
A
EPST está estabelecida desde 1977 no quartel da Lapa – situado
num morro sobranceiro ao rio e à zona antiga da localidade
– tendo, ao longo de quase 30 anos de actividade, formado mais de
40 mil condutores militares de diversas viaturas, entre as quais
as de transporte de materiais perigosos.
A Escola Prática, que possui como lema “Ensinar para Bem
Servir”, sucedeu naquele local ao Regimento de Artilharia Pesada
(RAP 3) que teve papel importante na Revolução de
Abril de 1974.
Na madrugada de 25 de Abril de 1974 uma bateria do Regimento de
Artilharia Pesada 3, duas colunas de Infantaria de Aveiro e Viseu
e uma companhia do CICA 2, formam o Agrupamento Militar Norte e,
comandados pelo então capitão Dinis de Almeida, “marcham”
da Lapa em direcção ao Forte de Peniche, e depois
a Lisboa.
“Na Figueira havia poucos oficiais afectos ao Movimento das Forças
Armadas. Abalámos de Águeda quando ouvimos a senha
de confirmação, chegámos aqui e ficámos
no quartel” recordou à Agência Lusa Góis Moço,
um dos oficiais revoltosos, hoje coronel na reserva e antigo comandante
da EPST.
Aos 60 anos, Góis Moço lamenta o encerramento do quartel
que comandou entre 1997 e 2000, considerando-o uma perda para a
cidade.
“É com imensa tristeza e alguma dor que o vejo encerrar.
E uma perda muito grande, o Exército viu crescer a cidade
e cresceu com a cidade” sublinha.
Na altura em que comandou a EPST a guarnição do quartel
rondava os 900 homens, entre oficiais, sargentos e praças,
encontrando-se hoje reduzida a pouco mais de centena e meia de elementos,
a maioria militares mas também civis.
Góis Moço lembra que a EPST foi “pioneira” na aplicação
de medidas relacionadas com o ensino da condução,
das quais destaca os exames psicotécnicos “eliminatórios
e prévios à condução”, a disciplina
de prevenção e segurança rodoviária,
introduzida no início dos anos 90 e um parque de manobras
“a funcionar no estrito cumprimento da lei”.
Formação
específica para a Bósnia ou Timor Leste
Destaca ainda a “rigorosa selecção” dos instruendos
formados pela EPST, que aprendiam a conduzir diversos tipos de veículos
– dos pesados, aos articulados, autocarros e de trans-porte de materiais
perigosos. Ali foram formados, igualmente, condutores para missões
específicas do Exército português na Bósnia
ou Timor-Leste, entre outros locais.
É preciso recuar até finais do século XIX,
poucos anos após a elevação da Figueira da
Foz a cidade, para assistir à chegada dos primeiros militares
à zona do Pinhal, onde foi construído um primeiro
quartel, hoje desactivado.
Por ali passaram até 1975, meios de Artilharia e Infantaria
– o primeiro soldado português morto na I Grande Guerra pertencia
à Infantaria 28, ali instalada – tendo o quartel passado
a coexistir com o da Lapa, em 1939, ano da sua abertura.
Ao longo dos anos foram várias as transferências e
extinções em ambas as unidades, culminando, em 1975,
com o fecho da Companhia de Instrução e Condução
Automóvel (CICA 2) e consequente desactivação
do quartel do Pinhal em cujos terrenos está hoje instalada
a PSP e a Universidade Internacional.
Já o quartel da Lapa começou por ocupar, em 1939,
sensivelmente dois terços da área de cerca de dez
hectares que hoje ocupa.
No final da década de 40, antecipando a adesão de
Portugal à NATO (1955) dá-se a expansão das
instalações, com a expropriação dos
terrenos do antigo bairro da Lapa, no âmbito da reestruturação
do Exército protagonizada por Santos Costa, ministro da Guerra
de Salazar.
Reflexos
na sociedade civil
Para além dos aspectos operacionais, o fecho do quartel tem,
segundo o antigo comandante Góis Moço, reflexos na
relação da instituição militar com a
sociedade civil, sustentada, entre outros aspectos, pelos Encontros
de Arte, regularmente promovidos pela EPST desde meados da década
de 90.
“Para além daquilo que era produzido nos encontros de arte
e aquilo que estes representavam de abertura à sociedade
civil, há todo um património de relações
afectivas e empatia com a cidade que se perde” afirma Góis
Moço.
Do acervo resultante dos encontros, espalhado pelas instalações
da EPST, constam mais de 300 peças, entre pintura e escultura,
produzidas por dezenas de artistas.
“O (artista plástico) Mário Silva foi um dos grandes
impulsionadores dos encontros. Entre vários pintores recebe-mos
o moçambicano Malangatana que ofereceu um quadro ao quartel”,
recorda.
Já um simpósio de escultura, organizado durante 15
dias dentro da unidade militar, levou vários escultores a
trabalhar ao vivo, perante o entusias-mo dos militares da guarnição.
Há mais de 50 anos, António Guedes, beirão
natural de Pomares, distrito da Guarda, chegou à Figueira
da Foz para cumprir o serviço militar.
Foi, indirectamente, a unidade da Lapa que lhe garantiu o sustento,
quando, em 1954, decidiu adquirir um pequeno restaurante, situado
rua abaixo, a poucas centenas de metros do quartel.
Terminada a tropa, onde servia na cantina, e desafiado pelos camaradas,
acabou por adquirir a Casa do Barril, onde os companheiros de armas
rumavam: “Comiam e bebiam, naqueles tempos viviam melhor”, garante.
O ‘Barril’ manteve a actividade até Guedes trocar as mesas
de refeição por outras, de bilhar, num café
homónimo de que foi proprietário durante três
décadas.
Mas a clientela manteve-se, apesar da mudança: “Todos os
militares me conheciam, caíam todos aqui. Se não fosse
assim, não tinha ficado na Figueira”, garante hoje, com 75
anos, três filhos e três netos.
O
papel da autarquia
Duarte Silva, o social-democrata que preside à autarquia
local, lamenta igualmente o fecho da EPST: “Tenho pena, pessoalmente
e como presidente da Câmara que a Figueira da Foz deixe de
ter uma unidade militar”, frisou.
Quanto a uma eventual alienação daquele património
por parte do Exército, avisa que o Plano Director Municipal
(PDM) define a área como equipamento, classificação
que a autarquia pretende manter.
“Continuo a defender que seja equipamento. Foi a posição
que defendi enquanto presidente da Assembleia Municipal (há
dois mandatos) e mantenho-a”, disse.
Assim, uma eventual venda do quartel com fins urbanísticos,
por exemplo, esbarra no PDM.
“Só podia ser fonte de receita para o Exército se
a Câmara mudasse a classificação. Não
fomos vistos nem achados (na decisão de encerrar), não
propusemos nenhuma alteração ao PDM, nada ali pode
ser feito que não seja entendido ser do interesse do município”,
sublinhou.
Com o encerramento da EPST os militares deverão ser transferidos
para a Póvoa de Varzim e Estremoz, podendo o edifício
vir a concentrar os centros de formação de Aveiro
e Portalegre da GNR, embora não exista ainda uma decisão
final.
A reportagem da Agência Lusa tentou obter declarações
do actual comandante da EPST, coronel Silva Loureiro, relacionadas
com o encerramento das instalações, mas não
foi autorizada nesse propósito pelo Estado-Maior do Exército.
......................................................................................................
Capital
de risco é uma das mais-valias
Licenciamento
industrial diferencia Incubadora da Figueira da Foz
Foi esta quarta-feira inaugurada a Incubadora de Empresas da Figueira
da Foz (IEFF), um projecto que resulta da parceria firmada entre a Associação
Comercial e Industrial da Figueira da Foz (ACIFF) e a Câmara Municipal
da Figueira da Foz (CMFF).
Orçada em 2,1 milhões de euros, um valor que integra a
comparticipação de cerca de um milhão e 200 mil
euros de fundos comunitários, a IEFF contou com a presença,
na inauguração, do secretário de Estado adjunto
da Indústria e da Inovação, António Castro
Guerra, dos presidentes da autarquia e da ACIFF, Duarte Silva e Fernando
Cardoso, e de inúmeros empresários da região.
Choque
tecnológico
Preparada, numa primeira fase, para acolher entre seis a 10 empresas,
de cariz predominantemente de base tecnológica e prestadoras
de serviços de significativo valor acrescentado, a IEFF pretende
proporcionar mais do que o espaço físico (no Parque Industrial
da Gala).
Desde áreas de serviços comuns (sala de serviços
partilhados, sala de reuniões, salas de formação,
auditório, bar/cafetaria; refeitório, recepção,
etc.) a espaços administrativos e de gestão, passando
por apoio a diversos níveis e pela promoção da
troca de experiências, a IEFF está ainda a estabelecer
inúmeros contactos no sentido de aumentar a ligação
a instituições de ensino superior.
O
futuro começa agora
Fernando Cardoso sublinhou o longo caminho percorrido e as maiores exigências
do futuro que está a começar, destacando como uma das
grandes mais-valias da IEFF, em relação às suas
congéneres da zona centro (com as quais irá trabalhar
em rede), o facto de “as empresas industriais aqui em incubação
reunirem as condições para requererem e obterem o respectivo
licenciamento industrial”. Outra vantagem que a IEFF quer proporcionar
às empresas que ali se instalarem por um período de três
anos é o de poderem candidatar-se ao apoio financeiro muitas
vezes necessário no início de vida das pequenas empresas.
“A IEFF já celebrou um protocolo com a PME Capital – Sociedade
Portuguesa de Capital de Risco, S.A. e o IAPMEI, no âmbito do
Programa FINI-CIA, tendo em vista facilitar o acesso ao capital para
financiar negócios emergentes de pequena escala com origem nesta
incubadora”, anunciou Fernando Cardoso.
Três anos, e não mais
“Peço-vos que sejam implacáveis em relação
ao prazo da incubação: três anos e ponto final,
haja ou não sucesso. Uma incubadora é feita para ‘rodar’.
Conheço incubadoras onde as empresas ganham penas… mas nunca
chegam a voar”, alertou Castro Guerra na sua intervenção.
A chamada de atenção seguiu-se ao felicitar das entidades
envolvidas pelo projecto inaugurado, e à promessa de seguir atentamente
todo o processo, nomeadamente no sentido de facilitar o cabal pagamento
dos incentivos por parte do Estado, numa resposta a uma solicitação
anterior do presidente da ACIFF. O secretário de Estado mostrou-se
confiante no potencial de sucesso da zona centro, cuja policentricidade
acredita poder ser uma “vantagem, dentro de uma lógica de funcionamento
em rede”.
Andreia Gouveia
......................................................................................................
Primeiro
corpo apareceu na Figueira
Ex-GNR considerado como “serial killer”
Encontra-se
em prisão preventiva o presumível assassino de três
raparigas entre os 16 e os 18 anos, desaparecidas na zona de Santa Comba
Dão, detido pela Polícia Judiciária de Coimbra.
O homem, de 53 anos e residente em Santa Comba Dão, foi na passada
sexta-feira presente ao Tribunal da Figueira da Foz.
Suspeita-se que tenha assassinado pelo menos três jovens, mas
a PJ admite que possam ser quatro ou mais, disse à Lusa o sub-director
nacional da PJ, Almeida Rodrigues.
O
desaparecimento das três raparigas deu-se em 24 de Maio de 2005,
em Novembro do mesmo ano e em 8 de Maio de 2006.
A primeira vítima já identificada não foi abrangida
pelas investigações da Directoria de Coimbra da PJ, dado
que os pais, julgando que ela tinha emigrado para França, não
participaram o desaparecimento.
O desaparecimento de uma segunda jovem em Novembro de 2005 desencadeou
uma investigação policial, com os agentes a procurarem,
numa primeira fase “estabelecer o perfil” do presumível homicida.
“Muito cedo suspeitámos estar perante um homicida em série
(“serial killer”)”, adiantou Almeida Rodrigues à agência
Lusa.
Um dos corpos foi encontrado no molhe sul, junto à praia, do
Cabedelo em 31 de Maio de 2005, e “está claramente identificado”.
Há algumas semanas, uma parte de um outro corpo apareceu nas
águas da barragem do Coiço, em Penacova, decorrendo os
normais processos de identificação.
No sábado passado, o corpo de uma mulher foi encontrado na barragem
da Aguieira, próximo de Penacova, e a Polícia Judiciária
admitiu que pode tratar-se de uma das três jovens alegadamente
assassinadas pelo ex-militar da GNR.
Segundo Almeida Rodrigues, há uma “grande probabilidade” de o
corpo encontrado ser o cadáver de uma das três jovens alegadamente
assassinadas.
Revolta
popular
Exactamente seis horas depois de ter entrado no Tribunal da Figueira
da Foz, António Costa saiu para ficar em prisão preventiva,
resguardado por um forte dispositivo policial.
A pacata cidade da Figueira da Foz nunca vira nada assim.
Quando a cidade se preparava para viver o S. João, o tema das
conversas pelas ruas e cafés era “o assassino de Santa Comba
Dão”. As marchas populares deixaram de ter qualquer importância,
e a romaria ao Tribunal da Figueira da Foz começou a tomar corpo
logo que se soube da detenção do cabo reformado da GNR.
A audiência estava marcada para as 14h00 de sexta-feira passada
e minutos depois o jardim municipal fronteiriço ao tribunal começava
a receber pessoas de várias idades. Na sua maioria pais e mães
que ali manifestavam a sua revolta perante o caso.
Uma hora depois, eram já cerca de três dezenas os curiosos
que ali esperavam, ao sol, pelo “assassino”, conforme diziam alto e
em bom som. O aparato não deixava ninguém indiferente.
Uma multidão de jornalistas, com as máquinas em punho,
esperava o alegado criminoso. Ao seu lado, as equipas de televisão
aprestavam-se a escolher o melhor local para apanhar “aquela” imagem.
Neste tempo, questiona-se tudo e todos. “Quem é?”, perguntavam
uns, na esperança de, talvez, reconhecerem o rosto de um homem
agora indiciado de cometer hediondos crimes e que abala uma cidade nada
habituada a estes alegados crimes violentos.
Os boatos voavam rápido, e uns diziam que ele era da Figueira,
outros de Coimbra, enquanto que os mais atentos davam as explicações:
“ouvi nas notícias que ele é de Santa Comba Dão”.
Às 16h00 a multidão já tinha engrossado mais um
pouco, quase que vedando a entrada do Tribunal da Figueira. Às
16h14 dois homens ladeavam um outro, calmamente, indo em direcção
à entrada do Tribunal. A escassos metros da porta o rosto foi
coberto por um casaco. “É ele!”, ouviu-se logo de uma série
de pessoas.
À pressa, e empurrando as pessoas à frente da porta, o
alegado agressor foi introduzido no Tribunal da Figueira, escoltado
por dois agentes da Polícia Judiciária.
Fora do tribunal exaltaram-se logo os ânimos. “Assassino”, “merecias
era a morte”, gritaram duas senhoras visivelmente alteradas com a situação.
Maria Anunciação, figueirense, acompanhada por mais duas
amigas, saíram de casa logo que as notícias correram,
ali mesmo ao lado. “Ainda o tentámos agarrar para fazer justiça
com as próprias mãos”, explicaram-nos já mais calmas.
Também Pedro Osório deixava comentários exaltados:
“se fosse a minha filha não havia polícia que me agarrasse.
Fazia-lhe a folha aqui mesmo”.
Outros juntaram-se ao grupo e, na tentativa infrutífera de entrar
no Tribunal, deixavam transparecer um sentimento de revolta e ódio:
“merecia era a morte. Se a lei fosse mais dura, nada disto acontecia”.
Paulo Mesquita, mais contido nas expressões, dizia só
que “por estas e por outras é que defendo a pena de morte”.
“Nunca
desconfiei dele”
Pela tarde fora, o povo não arredava pé. Muitos iam-se
embora, mas voltavam mais tarde, para ver se já havia novidades.
Sempre que a porta do Tribunal se abria, todos os olhares eram para
ali canalizados. “Ainda não é desta...”, ouvia dizer-se.
Ao longo da tarde, esteve à porta do Tribunal, visivelmente consternado,
Vasco Borges, tio de Joana Oliveira, a rapariga ainda dada como desaparecida.
O cabo da GNR era seu conhecido. “Nunca desconfiei dele. Ainda na quarta-feira
passada (dia 21) perguntou ao meu cunhado se já sabia algo da
Joana”, disse a O Figueirense, acreditando que “não agiu sozinho”.
Sensivelmente às 21h00, começou a notar-se uma movimentação
a que a Figueira da Foz não está habituada. Uma carrinha
do Corpo de Intervenção da PSP parava no local, deixando
sair vários elementos desta força policial. Depois ou-tra,
e outra, e ainda mais outra. Os cerca de 30 polícias iam-se colocando
estrategicamente nas imediações do Tribunal. Os agentes
da Polícia Judiciária entravam e saiam, e a ânsia
pelo desfecho do caso aumentava. Poucos minutos depois das 22h00, a
PSP começou a formar uma barreira. “Ele vem aí”, diziam
todos.
A rua foi encerrada ao trânsito automóvel, e os populares
e profissionais da comunicação social afastados. Às
22h15, António Costa sai escoltado pela PJ, entra numa viatura
descaracterizada e arranca a toda a velocidade. Breves segundos em que
os gritos e revolta popular tudo dominou. “Assassino! Deviam era fazer-te
o mesmo, lá na cadeia!”, diziam uns. “Monstro”, gritavam outros
sem perceber o móbil dos seus actos.
Às 22h30 a escrivã auxiliar do Tribunal da Figueira leu
uma parca declaração.
António Costa foi indiciado por uma juíza do Tribunal
da Figueira da Foz por três crimes de homicídio qualificado,
e outros três por ocultação de cadáver, ficando
a aguardar julgamento em prisão preventiva.
O móbil do alegado crime permanece em segredo de justiça.
Jorge
Lemos com Lusa
......................................................................................................
|