A escritora Rosa Lobato de Faria, cuja infância passou pela Figueira da Foz


PRÉMIO “ROSA LOBATO DE FARIA”


REGULAMENTO

O Prémio “Rosa Lobato de Faria” é instituído pelo semanário “O Figueirense”, em homenagem à escritora com o mesmo nome, e destina-se a distinguir, anualmente, quaisquer trabalhos de Língua Portuguesa elaborados por estudantes dos 10.º, 11.º e 12.º anos de escolaridade, em qualquer destes géneros:

- prosa de ficção,
- teatro,
- ensaio,
- poesia.

A Comissão responsável pelo Prémio decidirá qual o trabalho a ser escolhido de entre todos os apresentados a concurso.
O valor do prémio a atribuir ao melhor trabalho é de € 2.500,00 (dois mil e quinhentos euros).
O Regulamento é publicitado e distribuído directamente aos interessados na sede do jornal “O Figueirense”, e é divulgado através de publicação no Jornal “O Figueirense” e outros órgãos de comunicação social.
Até 30 de Junho de cada ano, os candidatos ao Prémio deverão enviar 7 (sete) exemplares das obras a ser apresentadas a concurso, sendo uma para arquivar e as restantes para distribuir pelos 6 membros do Júri.
Os trabalhos são apresentados sob anonimato e a sua divulgação processar-se-á através de publicação no jornal “O Figueirense”.
Não poderão ser apresentadas a concurso obras da autoria de qualquer dos membros do Júri ou do órgão promotor.
A votação do Júri poderá ser decidida por unanimidade ou maioria. Exclui-se a possibilidade de abstenção.
O Júri pode decidir não atribuir o Prémio se nenhuma das obras em concurso o justificar; pode, contudo, haver “Menções Honrosas”.
Das decisões do Júri não haverá recurso, ficando em arquivo a acta em que se tenha consignado a votação dos seus membros.
O resultado final do Prémio será decidido e divulgado  na comunicação social
A entrega do Prémio ao galardoado será efectuada em cerimónia pública a ter lugar no Casino da Figueira.
Das edições posteriores da obra vencedora, cujos direitos de autor são pertença do concorrente, deverá constar o título do Prémio: “Prémio Rosa Lobato de Faria”.

Figueira da Foz/2008

 
 


Ana Luísa Cação venceu a edição de 2007 do Prémio Rosa Lobato de Faria com o texto que abaixo se transcreve


Sons no Silêncio

"Ele chegou a casa. O silêncio habitual. O silêncio sepulcral desgastado, velho como o próprio pó da casa. Chegara a casa. Mulher e filha, ambas perdidas no silêncio da casa, embrulhadas na penumbra que a encerrava. Olharam-se, pai mulher e filha. Não houve o mínimo gesto, o menos notório dos movimentos. Os lábios permaneceram cerrados.
Há muito que o silêncio fora sepultado nas gargantas desta família, há muito que a casa ficara mergulhada na mais perfeita mudez. Se caía um garfo no chão, não havia um tilintar, não havia o som de pingos minúsculos a gotejarem em ritmos lentos das torneiras mal fechadas. Os vinis rodavam no gira-discos e cada nota musical era estrangulada neste silêncio perene. Não era derramado sobre este ar empoeirado o menos audível dos sons.
Sentaram-se à mesa. Não havia o mínimo barulho dos talheres a roçarem na porcelana defumada. Não havia um cheiro na nuvem fumegante que pairava sobre a comida e se desvanecia no ar da cozinha enegrecida. Nada tinha paladar, pois não havia cheiro. Demoravam a comida nas bocas como se tentassem extrair o mínimo paladar que qualquer alimento pudesse ter. Não havia sabor num pedaço de carne, num trago de vinho, num bago de uva.
Caiu um copo. O vinho escorreu rápido pela toalha desbotada e pelas vestes de cor desmaiada da filha, não deixando uma mancha, tão pálidas eram as cores. O copo caiu no chão, estilhaçado, espalhando pequenos pedaços de cristal baço pelo chão sem cor.
Após o último bago de romã se ter demorado na boca de cada um deles, levantaram-se. Os pratos foram lavados e arrumados sem que um som de porcelana a roçar se ouvisse, sem que o tinir do cristal dos copos se demorasse num instante ínfimo no ar.
Ele afundou-se numa poltrona. Acendeu, demorado, o cachimbo, espalhando pela sala a luz ténue de um fósforo. A mulher sentou-se direita num sofá, pegou num pano e continuou a fazer o mesmo bordado que fazia todos os serões. Um pano sem cor, sem desenho. O fumo sem cheiro do cachimbo serpenteava pelo ar até ao encontro da filha, que se sentava num piano de cauda, fazendo deslizar os finos e pálidos dedos pelas teclas enegrecidas do piano. Fechava os olhos ao som da música inexistente enquanto acariciava com as pontas dos dedos as teclas do piano, no canto da sala negra, no casarão silencioso, perdido num sítio que não existe, num mundo que só imagino em pesadelos.
Voltei a guardar as fotografias a preto e branco, na gaveta da cómoda, do sótão, da casa velha. Inquietavam-me."

   
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