Director:  
20/11/2009  
Ano 91º  
Edição N.º 5640  
O Figueirense
 
  Reportagem

“O PROGRAMA DO PRESIDENTE ATAÍDE NÃO FOI SUFRAGADO PELO PS”

Socialista António Paredes quebra o silêncio

António João Paredes quebra o silêncio e fala do seu partido, das eleições autárquicas e das políticas seguidas pelo actual presidente da Câmara da Figueira, João Ataíde.
Garante que “o programa do presidente Ataíde não foi sufragado pelo PS. Eu, pessoalmente, não participei e não posso ser incoerente e dar o dito pelo não dito só porque hoje somos poder. Foram feitos alertas que não podem ser esquecidos”.
Paredes critica ainda “a falta de diálogo e de articulação” entre o presidente da Câmara e os órgãos políticos-partidários do PS local. “Houve uma pré-municipalização, foram ignorados os órgãos e quem os elegeu. Esta candidatura não era independente e muito menos a 200%”.

Cerca de três centenas de militantes socialistas reuniram-se num jantar convívio em Maiorca, sábado passado para, refere a comissão organizadora da iniciativa, “reconhecer o trabalho de militância que João Paredes tem feito ao longo de doze anos de oposição ao poder laranja, instalado na autarquia figueirense, que terminou em 11 de Outubro”. Dizem não ter sido este um jantar de desagravo ou tentativa de lançamento de qualquer candidatura aos órgãos internos do Partido Socialista.

“MILITANTES MAIS PAPISTAS QUE O PAPA”

António João Paredes, actual presidente da Comissão Política Concelhia do PS, usou da palavra por entender que “é altura de quebrar o silêncio e de me defender dos ataques e acusações feitas por algumas pessoas que não me merecem credibilidade”.
O líder socialista rejeita “lições de ética deontológica e de moral vindas de algumas pessoas que têm tido comportamentos incompatíveis com o respeito pelos valores da esquerda democrática que o Partido Socialista defende”.
Recorde-se que João Paredes, enquanto presidente da CPC, escolheu um candidato contra a vontade de alguns militantes que defendiam outra solução. “Estes militantes, após a decisão ter recaído sobre João Ataíde, rapidamente se tornaram mais papistas que o papa e na campanha tudo fizeram para me afastar, e a outros militantes a mim ligados, usando a intriga e a maledicência”, salienta ao nosso jornal o líder partidário.
UMA PRÉ-MUNICIPALIZAÇÃO
Defende ainda que “a campanha foi em parte uma pré-municipalização orquestrada e comandada por alguns elementos que foram responsáveis pela derrota do PS nas autárquicas em 1997. Após essa derrota fugiram e deixaram o PSD na Câmara. Regressaram no inicio desta campanha autárquica, ao final de doze anos, para assaltar outra vez o partido, atropelando e não olhando a meios para conseguirem o poder e afastarem aqueles que se mantiveram a lutar durante doze anos até à reconquista da Câmara”.
Prosseguindo, refere que “apesar das inúmeras tentativas de me afastar da campanha autárquica, não o conseguiram” uma vez que “continuei a trabalhar nas freguesias, na organização das sedes, na base de dados dos apoiantes, entre outras, até ao dia das eleições”.

(Leia a notícia completa na edição impressa)

Jorge Lemos

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O Adeus à Augustinha da Cristal


ALICE MANO, CAÇÃO BISCAIA, MIGUEL AMARAL, CARLOS CACHULO, CÉSAR PEGADO E RODRIGO SANTIAGO DÃO O TESTEMUNHO DO VALOR DE UMA MULHER QUE FEZ DE UMA CERVEARIA UM LOCAL DE AMIZADES SÓLIDAS, CONVERSAS ANIMADAS, SEGREDOS CALADOS E COMIDA E BEBIDA GENEROSA.
MEMÓRIAS DE UM TEMPO QUE NÃO MORRE COM A “AUGUSTINHA”, PELO MENOS ENQUANTO FOREM TANTOS OS QUE A LEMBRAM COM CARINHO E SAUDADE.

"Morreu a Augustinha.
Um pouco da Figueira morreu, também.
Os tempos mudam, as atitudes evoluem e adaptam-se a novas realidades e, provavelmente, só os mais velhos se lembrarão do «Bife da Augostinha» ou, em alternativa «as omeletas».
Não seria o melhor bife do mundo.
Nem o mais bem apresentado.
Não tinha traços de «nouvelle cuisine».
Nem o espaço seria o mais «chic».
Nem as cadeiras muito cómodas.
Mas era, um espaço, condimentado pela sua gentileza, (de poucas falas mas de uma sensibilidade que lhe permitia distinguir a sua clientela), onde se podia estar, até altas horas da noite, discutir um pouco de tudo e de quase nada mas, onde os amigos se reuniam e não tinham hora marcada para sair, nem se apagavam as luzes em sinal de recolher…. Ela permanecia, presente, sem se fazer notar, deixando a sua clientela na liberdade da noite, fazer-se sentir dona do espaço.
A Augustinha não faz falta, só hoje, que desapareceu fisicamente.
Faz falta já há uns tempos. Nos tempos em que desapareceu do «espaço figueirense». Mas, infelizmente, nós os mais velhos, também nos deixamos arrastar pela tal evolução que muitas vezes censuramos e, só hoje, que ela desapareceu, nos lembramos de a recordar.
Seria bom que ficasse, pelo menos, como exemplo para os «colegas» o retrato de bem receber, não só com bom vinho e exemplar comida……
Vamos recordar, com saudade quando, passar férias na Figueira da Foz, sem ir à Augustinha (Cristal) não eram férias completas……
A Augustinha foi minha amiga.
Sendo uma pessoa de poucas falas, tinha uma sensibilidade rara para com a sua clientela.
Fez uma casa de referência na Figueira da Foz, onde todos se sentiam bem.
Faz falta e era bom que, muitos dos que, hoje, têm restaurantes nesta terra, que me é tão querida, com ela tivessem aprendido.
Obrigado Augustinha. Até sempre"

César Pegado

(Leia todos os depoimentos na edição impressa)


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“SERIA INTERESSANTE TER UM PRESIDENTE CULTO”

DEBATE SOBRE CULTURA (RE)ACONTECE(U) NO CASINO FIGUEIRA


“Novo Governo, Mais Cultura?” A pergunta foi feita por Carlos Pinto Coelho, no último ReAcontece do ano, à ex-ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, à directora da ExperimentaDesign, Guta Moura Guedes, e ao escritor Rui Zink. A actual ministra da pasta em questão, bem como o Secretário de Estado, foram convidados mas declinaram por motivos de agenda, enquanto o filósofo José Gil, que confirmara a sua presença, acabou por não comparecer por razões de saúde. Longe de ficar «desfalcado», porém, o painel foi enriquecido com as presenças dos vereadores da Cultura das autarquias da Figueira da Foz e de Leiria, que contribuíram com visões mais locais de uma área que, todos concordaram, continua a sofrer da bipolaridade entre Lisboa e Porto. A noite começou com uma breve análise dos 39 pontos do programa do Governo socialista dedicados à Cultura, e que Carlos Pinto Coelho considerou serem “22 muito bons, e os outros vagos, óbvios, polémicos ou maus”. A criação (tardia, quando comparada com a de outros países, como o Brasil, Espanha, França ou Espanha) de uma Academia da Língua Portuguesa, foi um dos pontos mais destacados, muito embora todos concordassem que o «desenho» da política de língua está, neste programa, demasiadamente centrado e concentrado no Ministério da Cultura, faltando, frisou Isabel Pires de Lima, “um organismo que tenha como função coordenar esta política de língua, que é transversal a vários ministérios, da Educação aos Negócios Estrangeiros”. A ex-ministra da Educação considerou ainda que “além de mal escrito”, o texto do programa governamental “dispara para muitos lados, desnorteado”, estabelecendo “passos maiores do que a perna e sem dizer como é que vai aumentar a perna”, para além de conter “laivos neocoloniais” extemporâneos, ao querer, agora, restaurar ou preservar uma herança cultural que, no tempo próprio, não foi alvo de cuidados, seja ela a língua ou o património edificado. Isabel Pires de Lima sublinhou, no entanto, que o programa governamental não é da autoria da actual ministra, nem da sua equipa, em quem deposita, aliás, “muita confiança”, esperando que sejam capazes de esquecer “um programa que é um retrocesso em relação ao anterior”, e fazer algo “em condições”.
Guta Moura Guedes defendeu, veementemente, que compete ao Governo, e desde logo ao Primeiro-Ministro, “definir a Cultura como uma aposta estratégica”. Carlos Pinto Coelho perguntou-lhe como é que isso se faz, e Isabel Pires de Lima precipitou-se na resposta: “Como fez para a Ciência no mandato anterior!”. As duas mulheres defenderam o valor da palavra de quem está no topo da hierarquia, e Rui Zink concordou. “Quando um ministro da Cultura diz que Fernando Pessoa não é só poesia, mas é também um dos nossos produtos mais exportáveis… atrás das palavras dele vão muitos outros”, explicou, contrapondo, como um mau exemplo, a declaração de Cavaco Silva, enquanto Primeiro-ministro, admitindo não gostar de Saramago. Em tom de bem-humorada provocação, Rui Zink disse ainda que “seria interessante ter um presidente culto”. Mas nem só os órgãos de soberania foram alvo de críticas. Guta Moura Guedes disse estranhar que “de forma sistemática, a Cultura não seja considerada importante pelos Órgãos de Comunicação Social (ocs)”, e Rui Zink concordou: “nos ocs de referência a cultura é entregue aos estagiários”, garantiu. Isabel Pires de Lima, no entanto, alargou a visão do problema, atribuindo-o ao “deficit de qualificação e de alfabetização” dos portugueses, afirmando mesmo que “a cultura é desvalorizada na cabeça da maioria dos portugueses”.
Na recta final do serão de tertúlia, que contou com diversas participações da plateia – onde se encontrava como habitualmente o jornalista Francisco José Oliveira –, os convidados concluíram que “pouco interessa o programado Governo”, uma vez que o maior poder está nos cidadãos, individual e colectivamente considerados, e estes já dispõem de muitos “instrumentos interessantes”, e de uma rede de equipamentos culturais “de altíssima qualidade, por todo o país, inesperados até, num país que não é rico”. Descentralizar é, também por isso, palavra de ordem na cultura. Foi o que acontece, uma vez mais, no Casino Figueira.



FIGUEIRA – VEREADOR DO URBANISMO COM POUCO TEMPO PARA A CULTURA

Gonçalo Lopes, Vereador da Cultura, Educação e Juventude da Câmara Municipal de Leiria, e António Tavares, Vereador do Urbanismo e Ordenamento do Território, Ambiente, Cultura e Colectividades e Toponímia, foram os dois convidados-surpresa da noite. Enquanto o primeiro afirmou que o “casamento” entre os pelouros que lhe cabiam era feliz, António Tavares admitiu que “sendo vereador do Urbanismo, vai sobrar-me pouco tempo para a Cultura”, até porque esta continua a ser “vista como uma arte menor”. As afirmações, corajosas num evento em que predominavam os defensores da Cultura como aposta estratégica indispensável para o país, acabou por colher a compreensão dos presentes. Isabel Pires de Lima foi a primeira a reconhecer que, em tempo de “crise económica e desemprego galopante”, não é de esperar que a prioridade de quem governa seja a de investir na Cultura. Ainda assim, António Tavares comprometeu-se a dirigir o melhor que puder as políticas culturais do Concelho figueirense, sublinhando que a forte tradição teatral, por exemplo, “de certa forma parou no tempo, sendo hoje uma espécie de arqueologia do teatro, ainda com a banda a acompanhar” as representações. O vereador figueirense mostrou-se particularmente interessado nas declarações de Guta Moura Guedes, que afirmou haver actualmente muitos directores artísticos disponíveis para saírem de Lisboa ou Porto e abraçarem novos projectos fora dos grandes centros urbanos.



Andreia Gouveia

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JOÃO NETO, O PASTOR QUE CULTIVOU AS AREIAS


Quando o jovem João Neto, então com 18 anos, decidiu finalmente acompanhar uma vizinha ao templo da Igreja Evangélica Presbiteriana de Lisboa, estava longe de imaginar que estava a dar o primeiro passo de uma jornada que haveria de mudar a sua vida – e a de muitas outras pessoas. Na verdade, o até então desinteressado católico romano aceitou o convite da vizinha, “para fazer distúrbios”. Ao longo da sua vida, ao serviço da Igreja Evangélica Presbiteriana, João Neto manteve a irreverência que o caracterizava na sua juventude, e é também por isso que, esta noite, o Centro Social da Cova e Gala – “um outro filho, a juntar aos quatro que tenho” –, juntamente com os antigos e actuais trabalhadores, amigos, entidades públicas e privadas, instituições sociais, humanitárias, culturais e colectividades, o vão homenagear num jantar de reconhecimento pelo seu trabalho.


Foi em Setembro de 1960 que o Pastor João Neto chegou à Figueira da Foz, para assumir a responsabilidade de ser pastor da comunidade evangélica presbiteriana local. Antes, estudara no Seminário Evangélico de Teologia (Carcavelos), e estivera em Portalegre e no Rossio (Lisboa) como pastor, mas houve algo na Figueira da Foz daquela alvorada da década de 60 que o prendeu: havia muito, muito para fazer. Talvez por isso o alfacinha de berço se tenha, ao longo dos anos, transformado num figueirense de corpo e, sobretudo, muita alma.

ATÉ À FIGUEIRA
Nasceu em Lisboa, e na capital cresceu, como já se disse, católico romano. “A minha experiência religiosa era difícil e desinteressei-me”, recordou a O Figueirense. De natureza rebelde, aceitou o convite de uma vizinha membro da Igreja Evangélica Presbiteriana para assistir a um culto. Achou piada à ideia e, pensando que ainda poderia rir-se da fé alheia, decidiu ir. Lá chegado, no entanto, esbateu-se-lhe a bravura, e acabou por ficar à porta, a ouvir os cânticos, até ganhar coragem e entrar. “Não liguei nada ao que lá se passou”, confessa, “mas quando saí houve muitos jovens, mesmo muitos, que caíram sobre mim, convidando-me a regressar”, lembra. Algo naquela manifestação genuína o tocou, e o jovem João voltou, não sem antes ter que vencer uma verdadeira luta interior. “A Igreja Evangélica Presbiteriana ficava perto do Largo do Rato, não muito longe de minha casa, e eu andava ali, de trás para a frente, saía de casa para ir à Igreja, e quando lá chegava decidia que era melhor voltar para casa”, ilustra. Até que foi… e ficou. “Foi a melhor decisão que tomei na minha vida”, afirma. Ao fim de algum tempo o pastor da Igreja Evangélica Presbiteriana convidou-o para o Seminário Evangélico de Teologia, onde João Neto travou conhecimento e amizade com muitos jovens de origens e opiniões muito diferentes daquelas a que estava habituado. “Eram jovens de Angola e de Moçambique”, explica, lembrando as “grandes discussões com o seu colega de quarto Eduardo Mondlane, que viria a ser organizador da FRELIM”, entre outros que hoje são, foram, ministros nos seus países. “Todo aquele movimento obrigava-me a pôr muita coisa em questão reconhece.
Estava-se ainda em plena ditadura, antes do concílio do Vaticano II, que só viria a acontecer em Outubro de 1962. “A Igreja protestante sofria muito, era quase um acto de coragem” não ser católico romano, sublinha. Mas “a chamada de Deus” foi mais forte do que tudo, e João respondeu tornando-se membro da Igreja Evangélica Presbiteriana, que chegou a ver um pastor expulso do país, obrigado a fugir para Espanha, para além de ter membros seus “perseguidos e apedrejados”. Como o que não nos mata torna-nos mais forte, João Neto partiu, em 1966, para a Suíça, onde prosseguiu os seus estudos no Instituto Ecuménico de Bossay, debruçando-se sobre o movimento ecuménico e o II Concílio do Vaticano, e travando conhecimento com grandes teólogos da Igreja ortodoxa e protestante, entre outras. Anos antes, em 1948, João Neto estivera em Agape, no norte de Itália, a participar num campo de trabalho internacional, organizado pelo Conselho Mundial de Igrejas, com o objectivo de congregar jovens de países que tinham sido beligerantes, promovendo a reconciliação entre os povos – uma experiência de que retiraria ensinamentos e forças para os mais de cem campos de trabalho internacionais que, anos mais tarde, lograria trazer para a Cova e Gala. Foi em Agape que travou conhecimento com um dos seus dois grandes mentores, o Pastor Tullio Vinay, já falecido, responsável por um projecto de desenvolvimento comunitário no interior da Sicília. Findos os estudos em Bossay, e perante a oportunidade de fazer uma viagem, escolheu precisamente esse destino, para poder trabalhar com a equipa de Tullio Vinay. O segundo dos seus mentores foi o pedagogo brasileiro Paulo Freire, que, obrigado a fugir à ditadura brasileira, se refugiou em Coimbra. Paulo Freire defendia um eixo de acção que, ainda hoje, é lema do Centro Social Cova e Gala: Alfabetização, Conscientização e Politização (no sentido de participação e luta cívica, e não, pelo menos necessariamente, de partidarização). E foi com a experiência de Tullio Vinay e a pedagogia de Paulo Freire que, em 1960, o Pastor João Neto chegou à Figueira da Foz.

DA FIGUEIRA DA FOZ PARA S. PEDRO
Como Pastor da Igreja Evangélica Presbiteriana da Figueira da Foz, João Neto tinha a responsabilidade de apoiar as pequenas comunidades em redor. Uma delas mereceu-lhe particular atenção: a Cova e Gala. “Quando pela primeira vez visitei a Cova e Gala, eram apenas dois lugares perdidos, esquecidos pelos poderes políticos”, recordou. Só em 1972 conseguiu que o então presidente da autarquia, José Jorge Pinho, visitasse mais atentamente aqueles locais, levando-o por caminhos desconhecidos, onde desconhecidas eram também as ligações eléctricas, mas abundavam as habitações clandestinas e as fossas a céu aberto. Os pescadores, que constituíam a maioria dos habitantes, voltavam frequentemente da faina sem ter com que alimentar as suas famílias. “Senti que tinha que fazer alguma coisa”, explica o Pastor João Neto. E fez.

PLANEAMENTO INOVADOR
O Pastor João Neto ainda guarda, carinhosamente, as notícias que, lá fora, da Alemanha à Suíça, se iam publicando sobre o Centro Social Cova e Gala. Numa Europa recentemente desperta para as questões do desenvolvimento social, o caso figueirense era alvo de interesse, de elogios e de estudo. Para isso muito contribuíram os campos internacionais de trabalho que, como já se referiu, o Pastor Neto conseguiu trazer para a margem sul. Nesses campos, jovens estrangeiros ajudavam o centro e a comunidade, interagindo com os figueirenses e por eles sendo acarinhados ao ponto de, já formados e adultos, muitos terem voltado para visitar velhos amigos desses tempos. O Centro Social, que nasceu na Avenida Remígio Falcão Barreto, num velho edifício, ia mudando o rosto à localidade. Entretanto, ainda no tempo da PIDE, o Pastor Neto e a equipa que com ele trabalhava ia fazendo os possíveis para lidar com as pressões políticas – menores do que seria de esperar, numa permissividade que só a atenção internacional pode justificar. Ainda assim, o Pastor Neto era frequentemente interrogado e vigiado, quer na Figueira quer no estrangeiro, onde encontrava sempre compatriotas suspeitos de serem informadores do regime. Mas o Centro Social avançava, apostando num planeamento que, à época, era uma autêntica inovação. “Fizemos levantamentos sociológicos, para conhecer os verdadeiros problemas e as necessidades das pessoas”, explicou o Pastor. Para fazerem bem, apostaram na formação, trazendo à Figueira da Foz uma conferência internacional, com o apoio do INODEP, sobre elaboração e avaliação de projectos de desenvolvimento. Foi apenas uma das iniciativas pedagógicas que o Centro Social promoveu. Em 1969, foi fundado em Buarcos o Centro Ecuménico Reconciliação, com as igrejas sinodais (presbiteriana, metodista e anglicana), que era um local de encontro sobretudo de jovens protestantes, católicos, progressistas e opositores ao regime. O Pastor João Neto detinha a responsabilidade das questões sociais. Hoje, o Centro Ecuménico Reconciliação “está parado”, mas o Centro Social Cova e Gala nunca parou.
Em 1975, o Pastor Neto conseguiu que o Estado entregasse ao Centro Social as instalações da Morraceira, onde até então funcionava uma Casa dos Pescadores, com sete funcionários a prestarem apoio a três crianças. Fruto do levantamento real das necessidades da população, ao fim de uns meses as instalações davam já apoio a 170 crianças. Mais tarde, a antiga e desactivada carreira de tiro da Gala também foi transformada, com o Centro Social a implementar no local um projecto de agricultura intensiva, baseado em estufas simples mas inovadoras, com sistema de irrigação gota-a-gota, e o aproveitamento das areias, inspirado na agricultura no deserto de Israel. A Direcção Regional de Agricultura da Beira Litoral percebeu a potencialidade do projecto e apoiou-o: o Centro acabaria a dar formação a jovens agricultores de Norte a Sul do país.

ONTEM, HOJE E SEMPRE
Paralelamente à sua actividade de mentor do Centro Social Cova e Gala, João Neto continuou a sua actividade pastoral. Das Alhadas, por exemplo, guarda gratas recordações, ou não tivesse acompanhado aquela comunidade ao longo de quase 20 anos. Mas quando saiu, fê-lo de forma decidida, por considerar que manter os laços impediria o seu sucessor no cargo de criar os seus.
Agora, com Joaquim Afonso a suceder-lhe à frente dos destinos do Centro Social, João Neto mantém-se com uma vida ocupada, e esforça-se por não aparecer na instituição onde, é visível, continua a ser muito acarinhado. “Sinto-me como um pai que, depois do filho crescido, continua atento, mas tem que se afastar, e dar espaço para o filho crescer, de forma autónoma”, explica. Com quatro filhos, e uma esposa que o acompanhou no Centro Social, como educadora de infância e responsável por essa área, é tempo de compensar a família pelo tempo que a missão social lhe tomou. Sobre a homenagem desta noite, considera-a desnecessária mas aceita-a em nome de todos quantos, com ele e tanto como ele – faz questão de sublinhar – trabalharam dedicadamente para melhorar a qualidade de vida de milhares de figueirenses. O trabalho, esse – garante – está longe de estar concluído. Como um agricultor diligente, João Neto preparou o campo e escolheu criteriosamente as sementes que, agora, cabe a outros garantir que continuam a frutificar.

Andreia Gouveia

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Flash mob trouxe guerra de almofadas ao Bairro Novo


Sábado passado, Bairro Novo, frente ao Edifício Portugal. 18h00 em ponto. Soa um apito. Sem se perceber bem porquê, abrem-se mochilas, retiram-se almofadas e começa uma guerra. Pacífica, claro está.
Cinco minutos depois, volta a ouvir-se o apito, avisando que tudo terminou. Os cerca de 70 geocachers e amigos juntam-se para uma foto “em família” para assinalar a iniciativa que aconteceu precisamente à mesma hora em 52 cidades de 21 países. Mais cinco minutos e tudo voltou à normalidade.
“O que se passou aqui?” – perguntavam diversos mugglers (pessoas de fora). Tratou-se apenas da sexta edição de uma “World Wide Flash Mob Event”, ou seja, dezenas de eventos que acontecem um pouco por todo o mundo no mesmo dia e à mesma hora, por vezes para divulgação de determinada causa. As flash mobs, o oposto aos mega-eventos, são dinamizadas por geocachers e divulgadas sem grandes aparatos nesta comunidade que reúne cerca de 943.109 elementos em todo o mundo.
A edição deste ano, nesta cidade, foi “organizada” por Paulo Simões, geocacher há cerca de um ano. Fica a promessa de nova guerra de almofadas para o próximo ano. Num lugar perto de si. Basta estar atento.


geocachers: os novos caçadores de tesouros

O geocaching pode ser explicado, de forma resumida, como uma caça ao tesouro com recurso à alta tecnologia, praticada em todo o mundo por aventureiros equipados com aparelhos de GPS.
A ideia é localizar “contentores” escondidos, denominados geocaches, que podem estar em qualquer ponto do mundo. Depois, há que partilhar essa experiência através da Internet.
O geocaching é praticado por pessoas de todas as idades, que adoptam nicks (alcunhas) e têm um forte sentimento comunitário e preocupação ambiental.

Luís Teixeira e o seu filho Afonso são geocachers oficialmente registados há sensivelmente três anos.
Os pequenos tesouros que escondem – e que encontram – têm levado pai e filho a percorrer todo o território nacional e algum do espanhol. “Já fomos do Algarve ao Minho, mas também já estivemos na Galiza, Canárias e Tenerife”, conta ao nosso jornal Luís Teixeira explicando que o geocaching “é também uma forma de dar a conhecer as nossas riquezas naturais e patrimoniais, locais e nacionais, a portugueses mas também a um considerável número de geocachers estrangeiros”.
Luís e Afonso têm escondidas caches essencialmente “em locais com história”, caso do Forte de Santa Catarina, Paço de Tavarede, Palácio Sotto Mayor, Paço de Maiorca, Dólmen das Carniçosas e Castro de Santa Olaia, entre outros locais.
A dupla dá o seu contributo ao projecto nacional intitulado “Lusitânia”, que comporta 30 caches escondidas em 30 regiões do nut III (Baixo Mondego). Cada cache tem um código especial e que, depois de reunidas, darão as coordenadas de uma cache final, escondida na zona de Guimarães. A família Teixeira tem a sua cache junto à Capela de Reveles (concelho de Montemor-o-velho).
Do concelho da Figueira da Foz encontram-se oficialmente registados perto de duas dezenas de geocachers que em diversas freguesias esconderam tesouros. Imagens, comentários, lembranças, informações históricas e patrimoniais são apenas alguns das “riquezas” que podem ser encontradas e partilhadas através deste movimento que cresce a cada dia.
São aproximadamente 68 caches no concelho, distribuídas pelas freguesias de S. Julião, Buarcos, Quiaios, Alhadas, Moinhos da Gândara, Maiorca, Santana, Vila Verde, Tavarede, S. Pedro, Lavos, Alqueidão, Paião e Bom Sucesso.


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