Director:  
08/06/2007  
Ano 88º  
Edição N.º 5511  
O Figueirense
 
  Reportagem

Inaugurado troço Marinha Grande – Louriçal

A17 até Mira deverá estar pronta
no primeiro semestre de 2008

Foi já inaugurado o troço de 32 quilómetros da A17 entre a Marinha Grande e o Louriçal. O troço de 60,4 quilómetros da A17 que ligará o Louriçal a Mira terá três nós de acesso no concelho da Figueira da Foz: um no Paião, a sul do rio do Mondego (cuja travessia inclui uma nova ponte); outro na A14 Figueira da Foz-Coimbra e o terceiro a norte, na zona de Quiaios, perto da qual onde está prevista uma nova zona industrial.
Depois de concluída, a A17 permitirá uma alternativa à A1, também em perfil de auto-estrada, permitindo servir as cidades mais litorais, como a Figueira da Foz,
Marinha Grande ou a zona Oeste.

Para já, é aberto ao tráfego automóvel um troço de 32 quilómetros, entre Marinha Grande e o Louriçal, faltando concluir a ligação a Mira, que irá permitir a circulação entre as duas principais cidades do país (Porto-Lisboa) numa auto-estrada paralela à A1. No total, a obra deverá custar 613 milhões de euros mas este troço terá o custo parcelar de 190 milhões de euros e uma portagem paga na ordem dos 2.5 euros.
Ao longo da obra, existiram várias polémicas, a maior parte delas relacionadas com vias de atravessamento, já que a nova A17 vem cortar algumas localidades a meio e condicionou a circulação nalgumas vias secundárias mas com grande utilização pelos moradores.

“Vem com quatro anos de atraso, mas vem”
Sobre a A17, cuja conclusão está aprazada para o primeiro semestre de 2008, passando a ligar, pelo litoral, a Marinha Grande – onde entronca com a A8 – a Mira e daí a Aveiro a à A1, Isabel Damasceno considerou-a de “enorme importância” para o desenvolvimento da região.
No entanto, a autarca de Leiria frisou que na região de Leiria os investimentos públicos chegam “sempre atrasados”, aludindo, nomeadamente, à demora na concretização da nova via.
Já Duarte Silva, presidente da autarquia da Figueira da Foz, um dos concelhos que será atravessado pela A17 em 2008, via que conclui a ligação directa a Leiria e Lisboa, lembrou que as expectativas da conclusão da obra remontavam a 2004, por alturas do Europeu de Futebol.
“Vem com quatro anos de atraso, mas vem” disse o autarca à agência Lusa, frisando que a “culpa” da demora “não foi de um governo mas de vários”.
O troço de 60 quilómetros da A17 que ligará o Louriçal a Mira terá três nós de acesso no concelho da Figueira da Foz, um no Paião, a sul do rio do Mondego (cuja travessia inclui uma nova ponte), outro na A14 Figueira da Foz-Coimbra e o terceiro a norte, na zona de Quiaios, perto da qual onde está prevista uma nova zona industrial. O troço Louriçal - Quiaios, com 40 Km de distância, foi projectado pela empresa GlobalVia e está orçado em 120 milhões de euros. Será nesta zona do nó de Quiaios que será implantada uma área de serviço.
No primeiro semestre de 2008 deverão estar concluídos os restantes 60,4 quilómetros do segundo troço da auto-estrada, que irá ligar Louriçal a Mira, num investimento de 353 milhões de euros.

Ligação da A8 à auto-estrada do Norte
A presidente da Câmara de Leiria, Isabel Damasceno, reclamou no domingo passado a ligação da auto-estrada A8 (Lisboa-Leiria) à auto-estrada do Norte, uma ambição antiga, que, segundo a autarca tem encontrado “problemas inexplicáveis”.
“A ligação da A8 à A1, o famoso IC 36, tem passado por vários problemas, alguns deles inexplicáveis, ao longo dos últimos anos” disse Isabel Damasceno, durante a cerimónia de inauguração do troço de 32 quilómetros da A17 entre a Marinha Grande e o Louriçal, realizada em Leiria.
Pedindo “rapidez e urgência” na obra, a autarca ouviu, minutos depois, o ministro das Obras Públicas, Mário Lino, responder que aquela via “vai para estudo de impacte ambiental ainda este mês”.




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Uma centena de pessoas concentrou-se pela reabertura da maternidade

“Mães da auto-estrada” defendem partos na Figueira

Cerca de uma centena de pessoas, entre as quais várias crianças, concentrou-se na noite da passada sexta-feira no átrio da Junta de Freguesia de São Pedro, perto do Hospital Distrital da Figueira da Foz (HDFF), numa vigília pela reabertura do bloco de partos daquela unidade de saúde, encerrado a 4 de Novembro de 2006, altura em que as grávidas passaram a ser encaminhadas para as Maternidades Daniel de Matos e Bissaya Barreto, em Coimbra, e Hospital de Santo André, em Leiria.
A iniciativa com que o movimento cívico “Nascer na Figueira” assinalou o Dia Mundial da Criança congregou autarcas e populares, entre os quais duas das mães que deram à luz numa ambulância, na auto-estrada A-14 (Figueira da Foz-Coimbra), meses após o encerramento daquele serviço. Silvina Queiroz, porta-voz do movimento, apresentou-as como “as mães da auto-estrada”, agradecendo o testemunho emocionado de mulheres que “viram transformado um momento de alegria em momentos de insegurança e muitos nervos”.

Ana Redondo, administradora da empresa municipal Figueira Grande Turismo (FGT), relatou a sua experiência – “uma aventura com final feliz” como lhe chamou, sobre o nascimento do seu filho Gonçalo, na manhã de 21 de Março, ao quilómetro 23 da A14.

Aventuras felizes com azares à mistura

Ana Redondo começou por sublinhar que o seu primeiro filho, Diogo, hoje com três anos, nasceu no bloco de partos da Figueira da Foz, de on-de guarda as melhores recordações. Este ano, o pequeno Gonçalo, “uma criança saudável” cujo parto estava previsto ser provocado naquele dia, em Coimbra, acabaria por decidir nascer umas horas antes, o bastante para ter como local de parto a auto-estrada, a bordo de uma ambulância. Ana Redondo explicou que o “azar” continuou à chegada à maternidade Daniel de Matos.
“Apanhei a mudança de turno e não foi nada fácil. As pessoas do hospital não estão habituadas a que o bebé chegue já nascido e pareciam mais interessadas em saber pormenores do que em prestar-me assistência”, lamentou.
“Quando cheguei as camas estavam todas ocupadas, as enfermeiras não tinham mãos a medir e até para conseguir que aspirassem o meu filho e outros recém-nascidos que estavam a precisar foi complicado. Acho que a maternidade da Figueira da Foz tem de reabrir”, defendeu, revelando outro dado “preocupante”.
“O Gonçalo nasceu dia 21, e quando fui confrontada com a inexistência de alguns bens básicos para os bebés e para as mães explicaram-me que o orçamento não tinha sido aumentado, não esticava, e com o maior número de partos esses bens acabam antes do fim do mês”.
Gonçalo foi a segunda criança, no espaço de 15 dias, a nascer na auto-estrada a bordo de uma ambulância - a 8 de Março nasceu ao quilómetro 17 uma menina de ascendência chinesa - e a 16 de Maio, foi a vez de Aldina Figueiredo dar à luz Micaela, também a caminho de Coimbra. “Acordei bem, sem dores, mas a meio da manhã comecei a ter muitas dores e tive de chamar a ambulância para ir para Coimbra”, contou. Aldina acabaria por ser transportada pela ambulância no núcleo da Cruz Vermelha Portuguesa de Maiorca. “Com os solavancos da estrada” a Micaela nasceu ao quilómetro 33 da A14, assistido, tal como os restantes, por um médico do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM).

Resultados à vista
Duarte Silva, presidente da autarquia da Figueira da Foz, lembrou que a Câmara se opôs, desde o início, à decisão do Ministério da Saúde em fechar o bloco de partos. “Os re-sultados estão à vista. Se querem ter mais segurança, então esta não foi uma boa solução”, disse, apelando aos responsáveis da Administração Regional de Saúde (ARS) do Centro e Ministro da Saúde para que “repensem a situação e voltem atrás” na decisão.
Por entre crianças que se entretinham a pintar um painel colocado na parede da junta de freguesia, animação de rua e populares segurando balões coloridos, Silvina Queiroz, sustentou que “a razão assiste a quem contesta o encerramento da maternidade e pugna pela sua reabertura”.

Disponível para ‘mudar’ dentro de três a quatro anos

O responsável de ginecologia e obstetrícia da Ordem dos Médicos disse, em declarações à agência Lusa, que as consequências da transferência de partos da Figueira da Foz para Coimbra só podem ser avaliada dentro de três a quatro anos. Luís Graça, falava à margem das Jornadas Luso-Brasileiras de Actualização em Ecografia, Obstétrica e Ginecologia, que reuniram 200 especialistas portugueses e brasileiros na Faculdade de Ciências da Saúde da Covilhã.
“Eu compreendo as populações”, referiu Luís Graça, mas desdramatizou a situação. “Nascem muitos bebés em ambulâncias, por exemplo, nos arredores de Lisboa, por causa do trânsito. Basta pensar no que é subir a Calçada de Carriche às 8h00 da manhã”, ilustrou. “No caso da Figueira da Foz não há trânsito, mas há uma razão: as parturientes estão a ser transportadas para serviços diferenciados de melhor qualidade”, sublinhou. Para aquele responsável, o importante é saber “se os bebés tiveram uma assistência perinatal mais qualificada em Coimbra do que teriam se tivessem nascido na Figueira da Foz”.
“Tanto a maternidade Bissaya Barreto como a maternidade Daniel de Matos, em Coimbra, fazem parte da rede de cuidados perinatais diferenciados, com recursos humanos e materiais que nos põem nos primeiros lugares dos rankings mundiais, o que não acontece com o hospital da Figueira da Foz”, realçou, defendendo que “esta é uma situação que só se pode reanalisar ao fim de três ou quatro anos e não ao fim de meia-dúzia de meses”.
“Se nessa altura tiver responsabilidades e os números demonstrarem que a qualidade dos nascimentos não melhorou, estarei disponível para fazer um raciocínio contrário ao que tenho feito”, referiu, convicto, no entanto, de que “isso seria algo que nos poria numa situação diferente do resto da Europa, onde a concentração dos nascimentos em ambiente de qualidade mostrou ser o caminho a percorrer”.

O que diz a ARSC

“Meio ano depois do encerramento do bloco de partos do Hospital Distrital da Figueira da Foz (HDFF), realizaram-se, nas maternidades de Coimbra e no Hospital Santo André, em Leiria, um total de 215 partos a mulheres provenientes do concelho da Figueira da Foz. (...) Os responsáveis pelos serviços de obstetrícia, ginecologia e neonatologia das (referidas) maternidades consideraram não existir sobrecarga nesses mesmos serviços, estando a recepção das parturientes da Figueira da Foz a decorrer normalmente”.


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Recordando João Rocha

“Aqui Turismo! Cabina de Som...

Anos 30... e décadas seguintes! Areias cheias de banhistas e um movimento que preenchia as artérias do Bairro Novo. Os espanhóis e a claridade ímpar que mais tarde Augusto Pinto soube escrever. Isto dito assim é pouco para exaltar aquilo que hoje em memória se poderia dizer da Figueira. Eram verões de loucura!
Umas das novidades eram os sons da rádio (na circunstância por cabo). Na Figueira as colunas públicas debitavam música e palavras, uma das vozes que garantiam a emissão era a do mentor do projecto – João Rocha. Música, informações úteis e os tradicionais perdidos e achados fa-ziam os blocos de pro-gramação que a Cabina de Som do Turismo projectava para o éter.

Vitorino Nemésio que passava por vezes férias em Buarcos, chegou a escrever no então Diário Popular que “o alto-falante despeja esclarecimentos práticos e anúncios de toda a região às horas de maior calor. Referia-se, claro, ao som que João Rocha preparava com carinho. Do estúdio, por si instalado estava a maquinaria que permitia a realização dos programas, emissões com horas certas, e com o sinal horário que tinha a confiança da Casa Armando Morais.
Sinal sonoro e... perdeu-se um colar de pérolas. Histórias, muitas. Contam-nas bem duas pessoas que com ele trabalharam: Sansão Coelho e Aníbal José de Matos.
Mas quem foi o mentor deste projecto?
João António Saraiva Rocha, um figueirense convicto, nasce a 12 de Abril de 1906. É conhecido como o “menino de oiro”, não só pelos seus caracóis loiros e olhos azuis, mas também pelo nível económico da família. Pertencente à burguesia comercial, o seu pai, Manuel da Silva Rocha, é membro da Maçonaria (Loja Fernandes Tomás) e transmite ao filho os ideais republicanos e laicos que o vão acompanhar toda a sua vida. O avô João Rocha, proprietário de armazéns de exportação de vinhos, estraga com mimos o seu único neto e para ele manda vir, directamente de Paris, os brinquedos que o acompanham durante a infância: um pequeno copo com a gravação da Torre Eiffel, um comboio de corda com carris, locomotiva e carruagem, uma lanterna mágica com a sua colecção de vidros pintados a cores (que mais tarde electrifica para delícia das festas de anos da filhas Maria João e Eunice) e uma grafonola de criança, mas operacional, com um conjunto de discos. Como esta infância feliz rodeada de “audiovisual” (no início do séc. XX) terá determinado o futuro de João Rocha nunca se saberá. Mas a sua vida foi, sem dúvida, toda ela dedicada (para além da família) às coisas da rádio e da Figueira.
Em conversa com a filha, Maria João Rocha, ficámos a saber que em finais dos anos 20, “enquanto estuda em Coimbra e vive a fundo a vida académica (ver caixa - Vitorino Nemésio), a família sofre um colapso. O pai adoece, os negócios familiares entram em ruína e, de toda a fortuna existente, este filho único e neto único recebe, de herança, apenas dois jazigos: um em cada um dos cemitérios da cidade. Um golpe fundo, de que nunca falará. E assim, o “menino de oiro” entra num futuro jamais imaginado. Interrompe os estudos e passa por várias profissões até chegar a funcionário público administrativo, nos Serviços Municipalizados da Câmara da Figueira”.Em paralelo, desdobra-se em iniciativas cujo registo organiza, arquiva e anota: recortes de jornal, cópias de cartas enviadas, cartas recebidas, fotos e documentos referentes a actos tão diversos como a tentativa de criação de um serviço de transportes públicos na Figueira, a invenção de faróis para o nevoeiro, a gravação de programas sobre a Figueira que propõe às várias estações de rádio (alguns dos quais emitidos, tanto em Portugal como nos Estados Unidos, Canadá e França), a locução de vários documentários (1946 - Fábrica de Vidros da Fontela – real. Manuel Santos / 1964 – Figueira da Foz – real. Manuel Pata), etc. Mas, acima de tudo, o projecto de um emissor de rádio para a Figueira e a sua Cabina de Som.

A praia cheia ouvia a música e os anúncios...
Nos anos 30 e 40, a vida de João Rocha acompanha o período áureo da vida da Figueira, então considerada a mais bela e mais cosmopolita praia do país. O orgulho de ser figueirense, o gosto pela vida em sociedade (que lhe ficara dos tempos de menino de família) e o deslumbramento pelos anos loucos da rádio que então se vivem e a que, de imediato, adere, alimentam o seu empreendedorismo criativo. Em 1936 dá início a um sistema de som que durante duas horas por dia envia música, por cabo, a partir da sua Cabina de Som, para algumas esplanadas na Figueira. Depois, segue para uma luta inglória pela criação de uma rádio local. (Ver caixa Um Emissor Regional na Figueira). Mas a paixão pela rádio é absoluta e, durante a 2.ª Grande Guerra (que muito o marca e durante a qual recebe, em sua casa, refugiados Polacos), colabora activamente com a BBC e com a Rádio Voz da América, enviando informações sobre a qualidade da recepção das emissões na Figueira. E o desânimo que sente por não poder criar a sua rádio é compensado pelo reconhecimento dos ingleses da BBC que lhe enviam, agradecendo os serviços prestados e pedindo a sua colaboração no futuro, um aparelho de rádio PHILIPS ZA26707. Com ele o mundo torna-se mais pequeno e é com orgulho que, no início dos anos 50, conta aos amigos que pensa ter ouvido uma emissão do Japão.
Durante todo o resto da sua vida vai alargando a cobertura e o tempo de emissão da sua Cabina de Som, “numa missão de serviço público que considera ser a sua obrigação de cidadão e figueirense”, acrescenta Maria João Rocha. Através das suas emissões, ao estilo da rádio e com a sua voz radiofónica, dá conselhos sobre segurança nas praias (nos anos 50 já alerta para os perigos da exposição excessiva ao sol), informações de interesse público (farmácias de serviço, segurança rodoviária, prevenção dos fogos florestais, agenda cultural, títulos dos jornais, avisos de crianças perdidas, etc.) e, a partir dos anos 60, tem o supremo prazer de poder emitir, em directo, o noticiário da então Emissora Nacional e um programa autónomo, “Presença Coimbrã”, produzido e apresentado por Sansão Coelho.

Com estúdios na Esplanada
Instalada no edifício do Turismo, a Cabina de Som é fruto de um investimento pessoal, viável pela publicidade que emite. Durante os primeiros anos, as instalações são fornecidas em troca de serviços de amplificação sonora que João Rocha presta ao Turismo e à Câmara Municipal (concursos hípicos, regatas, cortejos, sessões solenes, festas populares, concursos de praia ou de folclore, entre outros) e, gratuitamente, a todas as instituições que lhos solicitem.
Mas a iniciativa que mais fortemente perdura até hoje, sem que muitos saibam quem esteve na sua origem, é a sua contribuição para a ligação da Figueira da Foz à “Marcha do Vapor”. Durante anos esta é o tema musical com que, durante toda a época balnear, abre e fecha as três emissões diárias, seguida pela voz inconfundível de João Rocha, ou dos seus colaboradores, como por exemplo Joaquim Alves de Oliveira, Manuel Ressurreição, Armando Cró Brás, Maria João Rocha, José Manuel Belchior, António Quaresma e José Martins, na frase “Aqui Turismo, Cabina de Som”. A ele se deve a sua primeira gravação em disco do trecho musical, de uma forma amadora e, depois de muitos contactos, a primeira gravação profissional (ver caixa Gravação em disco da “Marcha do Vapor”).
Nos anos 70 os temas foram acelerando de ritmo. Na discografia de João Rocha já havia temas de Paul Mauriat e outros nomes que vagueavam pelo êxito.
O jornalista Aníbal José de Matos começou a colaborar com João Rocha, inicialmente no Desporto, “já estava na RDP”, recorda. Carateriza João Rocha como uma pessoa calma e um grande entusiasta da rádio. “O sinal horário era feito com uma colher e um prato”, revela com graça.
Rita Lopes, que já na altura trabalhava no Turismo, classifica-o como “um criativo e foi carismático... para além de muito meu amigo”.

Depois o 25 de Abril
Em 1974 João Rocha recebe com alegria o 25 de Abril. Até aqui, embora sempre receoso, “em casa nunca se abstém de defender a sua posição anti-salazarista”, recorda sua mulher Noémia. “Durante anos, as discussões políticas com o sogro são permanentes e em 1952 recebe uma carta (que guarda para sempre, como um troféu) de uma tia da mulher que lhe comunica que nunca mais os visitará pois se recusa a entrar na casa de um comunista...”.
Reformado dos Serviços Municipalizados desde o início de 1973, João Rocha viaja pela Europa e dá vida ao sonho de conhecer os locais sobre os quais sempre se documentou (era assinante compulsivo de revistas), com a certeza de que havia um mundo diferente desse Portugal cinzento em que vivia.
“Em Paris, quando olha de frente a Torre Eiffel, as lágrimas vêm-lhe aos olhos e diz: ‘Desde criança que sonhava vir aqui’. No seu pensamento estaria, talvez, o pequeno copo gravado que o avô lhe oferecera?”, recorda com detalhe Maria João Rocha. João Rocha morreu no dia 5 de Outubro de 1978, mas a sua memória não se dissocia da este ano centenária “Marcha do Vapor” que, com tanto entusiasmo, divulgou como o símbolo musical da sua Figueira.

Luciano Ferrão
Depois, ainda durante largos anos, as Produções Luciano Ferrão, asseguraram o som, misturado com a brisa e o sol, usando outras tecnologias, e assim se continou a ouvir a rádio na praia. As informações e a música mantiveram a qualidade.
Desde 5 de Dezembro de 1985 existe também o Rádio Clube Foz do Mondego (inicialmente com a designação de Clube de Rádio da Figueira da Foz), assim como a estação que emite a partir de Maiorca.
Tudo projectos que dão futuro aos ideais que João Rocha traçou e pôs em prática... sempre com o sinal horário do carrilhão da Casa Armando Morais.


Um emissor regional
na Figueira

Entre 1946 e 1962 João Rocha desdobra-se em contactos, solicita autorizações e altera o modelo inicialmente proposto, na expectativa de conseguir a aprovação do projecto de um Emissor Regional na Figueira, ideia que desenvolve em conjunto com “Os Amigos da Figueira da Foz” (Instituição Regionalista) de que faz parte, entre outros, o médico Carlos Tavares. Depois de ver negada pela Direcção dos Serviços Radioeléctricos dos CTT a autorização para o licenciamento de um emissor que ficaria propriedade do Rádio Club da Figueira (pedido feito em 1953 com o apoio de Carlos Tavares), tenta, sem resultado, aliar-se a Emissores Regionais já existentes: Rádio Porto, Rádio Peninsular, Rádio Club Português, Rádio Alto-Douro, Rádio Régua, Rádio Ribatejo. Por fim, quando já só pretende que a Emissora Nacional coloque na Figueira um retransmissor que permita a recepção das suas emissões com boa qualidade, sofre a última desilusão.
Na pasta que reserva para arquivo deste assunto escreve, um ano antes de morrer: “Assuntos respeitantes à criação de um Posto Emissor na Figueira para assim permitir uma grande expansão do nome desta terra tão querida dos seus filhos (este assunto terminou pelo facto de depois de tudo tratado, ter vindo aqui um funcionário da Emissora Nacional e alguém lhe ter dito que não merecia a pena tal despesa, pois a rádio aqui era ouvida perfeitamente, o que era mentira e que ainda acontece em 1977)”.


Gravação em disco da “Marcha do Vapor”

No ano de 1954, João Rocha consegue que a Valentim de Carvalho produza um disco para a etiqueta His Master Voice, com arranjos e direcção de orquestra do maestro João Nobre e voz de Maria Clara, com a “Marcha do Vapor” (M. Dias Soares / A. Pereira Correia) num lado e a “Canção da Figueira” (Nóbrega e Sousa / Sousa Freitas) no outro. Para sua tristeza não é possível, por falta de verba, ter um coro para acompanhar Maria Clara, mas até ao último momento não desiste e, a 29 de Outubro, escreve ao director do Rancho dos Olivais (Lisboa) tentando encontrar maneira de arranjar o referido coro. E apresenta o projecto dizendo: “Desde há anos que tenho tentado junto de quem de direito para que a nossa “Marcha do Vapor” fosse gravada em discos comerciais facilitando a sua divulgação por terras de aquém e além mar e ainda pela possibilidade de qualquer pessoa poder fazer a sua aquisição e ouvi-la na sua grafonola. Desculpe V. Ex.ª esta minha ousadia, mas já que se pretende fazer uma gravação de responsabilidade, ficaria assim completa pois parte da marcha seria cantada pela Maria Clara e outra pelo coro, o que julgo maravilhoso”.
O Rancho já não existia e o disco saiu apenas com a voz de Maria Clara.
A 2 de Dezembro de 1954, recebe a carta da Valentim de Carvalho. “Tenho o prazer de lhe enviar uma prova em acetato da gravação agora feita da célebre “Marcha do Vapor” e da canção “Figueira da Foz”, cantadas pela artista Maria Clara com acompanhamento da orquestra João Nobre. Vamos ver se conseguimos fazer uma montagem com apitos de vapor para tornar o número mais característico.” João Rocha responde a 8 de Dezembro: “A “Canção da Figueira” está maravilhosa, tanto a música como o canto e a gravação. Melhor não se pode conseguir. A “Marcha do Vapor”, muito boa, tanto no canto como no arranjo e gravação, só faz falta o coro para melhor realce, no entanto está bem e para outra vez levará coros e tudo o mais que pensarem os nossos vindouros.”
Por sua intervenção, a “Marcha do Vapor” volta a ser gravada em Maio de 1967, para a etiqueta Ofir, produção da Discoteca de Santo António (Porto), pelo Rancho das Cantarinhas de Buarcos.
Este ano a marcha-hino do antigo Rancho do Vapor faz 100 anos e é ao hino oficial da cidade.


António Jorge Lé

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