Director:  
14/12/2007  
Ano 89º  
Edição N.º 5538  
O Figueirense
 
  Crónicas

A insegurança


Os portugueses estão a ficar com uma terrível sensação de insegurança. E têm razões para isso.
Os últimos episódios da cidade do Porto são bem sintomáticos disso mesmo. Mata-se à metralhadora com um à-vontade incrível. Pior mesmo é que se mata com impunidade.
No entanto, a minha crónica não é sobre o grande crime. É sobre o pequeno crime. Considero que a prevenção é a solução para o grave problema da insegurança em Portugal. Para se evitar o grande crime é necessário combater o pequeno crime com mão de ferro. Ninguém começa por matar à metralhadora. Para se chegar a esse estádio é necessário passar por outros estádios mais pequenos e aparentemente menos ofensivos. As forças de segurança e a Justiça devem dar a prioridade precisamente ao combate do pequeno crime. É esse que se transforma numa autêntica escola. Basta ver a impunidade com que se destrói os bens públicos e se rouba as pessoas: grafites, pequenos roubos, perturbações nas vias públicas, etc.
Se as forças policiais e a Justiça centrassem as suas atenções no combate e punição destes “pequenos crimes” seria a melhor forma de não passar a ideia de impunidade. Infelizmente a política actual é precisamente contrária.
Os pequenos delinquentes nunca vão à prisão porque “são ainda jovens”. A destruição dos bens públicos, como os grafites, são vistos como “males menores nos dias de hoje”. Pois são estes pequenos crimes e estes pequenos criminosos que mais tarde disparam de metralhadora com o à-vontade que se vê. Dou-vos só mais dois dados. O presidente da Camara de Nova Iorque combateu o crime em Nova Iorque apostando na punição sem condescendência dos pequenos crimes. Os resultados foram excepcionais.
Outro dado. já diziam os antigos”de pequeno é que se torce o pepino”. Deveria ser a frase base da política de segurança do governo.

Paulo Neves

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Bernard-Henri Lévy, a vertigem americana e a “Junk Politic”


Bernard-Henri Lévy é um destacado filósofo francês. Nascido em 1948, foi aluno de Jacques Derrida e de Louis Althusser. Antigo conselheiro de François Miterrand, também colaborou com o presidente Chirac. É um intelectual livre e independente. Não tem partido nem faz política em França. Professor universitário e autor de diversos ensaios, romances e artigos. Colabora com o jornalismo, o teatro e o cinema. Já representou o governo francês em diversas missões diplomáticas. Ajudou a fundar diversas organizações internacionais no âmbito dos direitos humanos e do combate à fome e ao racismo. Defende os pobres e os excluídos. É um crítico da corrupção, da incompetência e do fanatismo.
Alexis de Tocqueville nasceu em Paris no dia 25 de Julho de 1805. Oriundo de famílias nobres, licenciou-se em direito em 1826. No dia 2 de Abril de 1831 embarcou para os Estados Unidos da América do Norte com a intenção de observar e de estudar a sociedade norte-americana, chegando a Nova Iorque no dia 11 de Maio. Ao longo de nove meses viaja pelo país visitando Albany, Buffalo, Detroit, o lago Michigan, as cataratas do Niagára, Montreal, Quebec, Boston, Baltimore, Filadelfia, Pittsburgh. Mississipi, Memphis, Nova Orleães, Washington e regressa a Nova Iorque. No dia 20 de Fevereiro de 1832, embarca novamente para França onde chegou no mês seguinte.
Em 1835 publica a primeira parte do seu famoso livro, De la Démocracie en Amérique (A Democracia na América). A pretexto de estudar o sistema prisional americano, Alexis de Tocqueville observara o funcionamento da democracia americana e as possibilidades da sua implantação na velha europa que se preparava para substituir as seculares e tradicionais monarquias pelas modernas e inovadoras repúblicas. O seu livro foi um sucesso e conheceu inúmeras reedições por toda a Europa que, aliás, ainda hoje continuam (foi publicado recentemente em Portugal, por exemplo). Alexis de Tocqueville morreu tuberculoso, em Cannes, no dia 16 de Abril de 1859 aos 53 anos de idade. Este seu livro (publicou muitos mais) ficou para sempre como um indispensável e universal manual de política.
Em 2004 e 2005, Bernard-Henri Lévy aceitou o convite que lhe foi dirigido pela revista norte-americana Atlantic Monthly. A ideia era que ele viajasse pelos E. U. A., durante cerca de um ano (com todas as despesas pagas), recriando a viagem que Alexis de Tocqueville tinha realizado 172 anos antes, entre 1831 e 1832. Um francês culto e famoso voltava a viajar pela América observando e analisando as características da sua sociedade e a sua forma de estar na vida e no mundo. O resultado, agora obtido, foram os artigos regularmente publicados na Atlantic Monyhly, posteriormente compilados e convertidos em livro. A América vista e comentada por um francês. Em 1831-1832 e em 2004-2005. Este livro foi publicado em França, em 2006, com o título American Vertigo e em Portugal, em 2007, com o título Vertigem Americana.
Ao longo de 366 páginas, Bernard-Henri Lévy vai descrevendo as experiências e as surpresas (boas e más) que se vão sucedendo no decorrer da viagem pela América profunda. O povo, os índios, os escritores, o modelo económico, as religiões, as armas, a qualidade da informação, a “junk food”, a obesidade, os pobres e os ricos, os centros comerciais, as cidades que morrem, a segurança social e o sistema de saúde, o ensino, o desporto, as prisões, os bordéis, os museus, a escravatura, a música, o cinema, a segurança, os democratas e os republicanos e a inevitável e progressiva “junk politic”, apoiada na propaganda e nos negócios.
Tendo em conta a progressiva americanização do mundo actual e a expansão do American Way of Life (em Portugal, por exemplo, o vulgar cidadão quase só vê cinema americano) este é um livro que se recomenda e que permite antecipar as consequências da, aparentemente inevitável, “junk politic”.
God Bless America, em toda a sua diversidade.

Pedro Mota Curto

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