Director:  
08/02/2008  
Ano 89º  
Edição N.º 5546  
O Figueirense
 
  Crónicas

Entre Marés


O motor de arranque

Fernando era filho único, menino da mamã, como sói dizer-se, mas malandreco a dizer chega. Filho de Lisboa, tinha andado a estudar num dos mais badalados liceus da capital, cujo curso concluiu e entrara de caminho em ciências, no superior. Com a tropa (e guerras de África) à vista, descobriu a Marinha Mercante como caminho mais fácil para dobrar as tormentas da época do serviço militar obrigatório.
Entrou na Escola Náutica em 1964 e dois anos e meio depois saiu com o canudo do curso de Pilotagem que lhe proporcionou logo o primeiro embarque no paquete “Angola”, o qual fazia a carreira de África. Praticante, primeira viagem, sujeitou-se às praxes habituais com as quais se foi movimentando a jeito. Passou a fazer quartos (turnos de 4 horas) com o primeiro-oficial. No quarto das 16 às 20 horas, tudo bem, mas no das 4 às 8 da manhã, quando o marinheiro o ia despertar por volta das 3 e meia, o apelo dos lençóis falava mais alto e o bom do Fernando esquecia-se de pular da cama para fora. Sabendo que ele era atiradiço às jovens passageiras que viajavam no navio, alguém lhe ofereceu então um daqueles calendários de parede que normalmente exibem vistosas beldades de curvas estonteantes, louros cabelos pendentes e descalças até ao pescoço.
Bem, a partir desse dia, o rapaz, ao ser acordado, quando abria os olhos, dava logo de caras com a miss calendário que o arrebitava e obrigava a levantar, vestir e preparar-se para entrar de quarto. Mas, há sempre um mas, que faz mudar os planos rotineiros e, um belo dia, um outro praticante de oficial, tão malandreco quanto ele, resolveu sacar da antepara (parede divisória) do camarote a diva dos seus sonhos.
Na madrugada seguinte, lá foi o velho marinheiro, como habitualmente, acordar e abanar o moço. Bem o chamou, bem o abanou, mas qual quê? Terá dado meia volta nos lençóis, aberto meia nesga dos olhos remelados e ao ver que o bronze do calendário já não morava consigo, prostrou-se qual pedra inamovível. A muito custo (só com uma baldaça de água no pêlo), lá se levantou e, ao chegar à ponte, balbuciou triste e abatido:
-“Não há direito. Tiraram-me o motor de arranque…!”. E como sem motor de arranque o veículo não anda (só de for de empurrão ou numa descida), o pessoal que lhe tinha desviado o deslumbrante calendário foi convidado a recolocá-lo diante do beliche. E o bom do Fernando voltou a levantar-se de madrugada, sem tanto esforço.

Eduardo Gonçalves

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Política & políticos: a coragem do Bastonário da Ordem dos Advogados


Acho que não é novidade para ninguém a desenvoltura linguística do Advogado António Marinho Pinto, natural de Amarante e formado em Coimbra onde reside e advoga. Se como advogado não tinha papas na língua – nem sempre com total conveniência – agora, como Bastonário da Ordem dos Advogados, parece que ainda menos tem e, digo com toda a franqueza, permita Deus que tais papas nunca a língua lhe prendam, sobretudo para denunciar publicamente os crimes que afectam toda a sociedade menos favorecida, nos quais, muitas vezes, estão envolvidos alguns políticos.
Antes de mais considerações eu pergunto: as denúncias agora feitas pelo Bastonário da Ordem dos Advogados causaram surpresa a alguém? Não se falava já há muito nessas tramóias políticas e não políticas? Porquê esse espanto agora? Esses crimes de lesa-pátria movidos pela corrupção, já não são novidade para os portugueses, o que ainda não apareceu ninguém com a coragem bastante de dar o nome aos “bois”. O Bastonário também não teve essa coragem nem, quanto a mim, tem obrigação disso.
As respectivas investigações estão a cargo de outras esferas judiciais e ele – Bastonário – não tem que adiantar o trabalho de ninguém porque certamente também ninguém adiantará o trabalho dele.
De qualquer forma, Marinho Pinto, já prestou um relevante serviço à população portuguesa. Com esta sua chamada de atenção e com as mais diversas reacções vindas a público, ficamos a conhecer mais e melhor a jaez de muitos dos nossos políticos que até os tínhamos como fazendo parte duma pléiade
inofensiva, daqueles que não fedem nem cheiram, mas que, afinal, deixaram cair a máscara ao manifestarem-se contra a posição do Bastonário. Este, até apenas como cidadão tem o direito de apontar factos que são sobejamente conhecidos do público, já quanto aos seus autores, isso não é obrigação dele.
António Marinho Pinto, muito antes de ser Bastonário da Ordem dos Advogados já falava frequentemente na existência de corrupção com a envolvência de políticos; João Cravinho, ex-deputado socialista foi autor de um projecto que visava pôr cobro à corrupção mas esse projecto foi tolhido pelos seus colegas socialistas, incluindo o Primeiro-Ministro, José Sócrates. Logo após, Cravinho foi para a Inglaterra chefiar um banco privado. Aqui estava a turvar o ambiente da corrupção; em 2005, Paulo Morais, vice-presidente e vereador do Urbanismo da Câmara Municipal do Porto, queixou-se de ter sido alvo de pressões por parte de empreiteiros e partidos políticos para que viabilizasse projectos urbanísticos. Foi-lhe instaurado um processo preliminar de averiguações, pela Inspecção-Geral da Administração do Território! O fiscalista e professor universitário, Saldanha Sanches, em 2007, denunciou a cumplicidade existente entre as autarquias de províncias e o Ministério Público. “Nas autarquias da província há casos frequentíssimos da captura do Ministério Público pela estrutura autárquica”, disse. “Há ali uma relação de amizade e cumplicidade, no aspecto bom e mau do termo, que põe em causa a independência do poder judicial”, acrescentou. Estas declarações foram também motivo de da instauração de um inquérito pelo Procurador-Geral da República. Em 2007, nas comemorações da Proclamação da República, em seu discurso, o Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, dirigiu um apelo aos deputados para forçarem o empenho na luta contra a corrupção, através de iniciativas legislativas. O apelo do Presidente, feito um dia depois de o ex- deputado socialista João Cravinho, autor de vários projectos de combate à corrupção, antes de deixar o Parlamento, ter dirigido fortes críticas ao Partido Socialista (o seu partido) pelo abandono a que votaram alguns desses projectos. “Apelo a que os senhores deputados aprofundem o esforço já empreendido para concretizar, no plano legislativo, o ideal republicano de uma maior transparência da vida pública”, disse Cavaco Silva. Para os socialistas foi conversa que entrou por um ouvido e saiu por outro. O secretário de Estado, João Amaral Thomaz, socialista, ainda há dias afirmou que a fraude fiscal em Portugal é um problema grave. Disse que temos fraude cada vez mais sofisticada. É claro que foi mandado embora. O líder do PSD, Luis Filipe Menezes, desdramatizou as declarações do Bastonário por serem sobejamente conhecidas, mas não investigadas. Já em 2007, na cerimónia de abertura do ano Judicial, em pleno Supremo Tribunal de Justiça (STJ) o tema dominante foi a corrupção.
Ora, tendo-se falado tanto em corrupção e os factos estando aí bem patentes aos olhos até dos menos observadores, por que motivo tantos dos nossos políticos se fingiram estupefactos com os “lembretes” feitos pelo Bastonário?!
Vamos lá ter vergonha na cara e cada um cumpra com as obrigações a seu cargo e não pretenda que o Bastonário lhes faça a papinha toda.
É por estas e por outras de igual teor que, na última sondagem feita, apenas 7 por cento dos portugueses davam crédito aos políticos!

Hermínio Coelho

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Centenário da morte do rei D. Carlos


Antes de mais sou republicano. Apesar disso, como português, não posso concordar com a forma envergonhada e discreta como o Estado português participou nas comemorações do regicídio.
Na verdade, não está em causa ser monárquico ou republicano. Está em causa a história de Portugal. O Rei D.Carlos foi Rei de Portugal. Foi de 1889 a 1908 Chefe de Estado. Esta é uma razão de sobra para que o Estado português tivesse estado mais representado e envolvido nestas comemorações.
No entanto, limitou-se à presença do Presidente da República na inauguração de uma estátua a D. Carlos em Cascais. É pouco. Depois, a atitude do Ministro da Defesa que voltou atrás numa autorização para uma banda militar participar numa das cerimónias é absolutamente lamentável. O ministro foi sensível ao argumento que se tratava de uma iniciativa privada. Até pode ter sido uma iniciativa privada. No entanto, se foi privado foi porque o Estado português nada fez como, naturalmente, seria a sua obrigação.
Já quanto à morte de D. Carlos e do Príncipe D. Luiz foi um episódio que choca qualquer democrata. Mesmo republicano, como eu. Afinal, não é necessário assassinar um eei para se mudar de regime.
No 25 de Abril ninguém matou o Almirante Tomáz ou o Professor Marcelo Caetano. Nem mesmo no 5 de Outubro de 1910 o Rei D.Manuel foi morto. A decisão bárbara de matar um Chefe de Estado, num regime apesar de tudo democrático, não é minimamente aceitável. Pelo contrário, é condenável.

Paulo Neves

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Que é feito dos resultados?


Quem se não lembra do que foi a extraordinária polémica nacional em torno do referendo ao aborto e sobre a matéria que o mesmo tratava? Mil e uma discussões e debates, que nunca realmente esclareceram o que quer que fosse!
Mas lá veio o referendo e com o resultado próprio do tempo. Deste passou-se à legislação adequada, e, logo depois, à implementação das estruturas destinadas a permitir levar aquela à prática.
Ora, todos nos lembramos do número fantástico que era atribuído aos abortos clandestinos. Em todo o caso, um número muitíssimo pouco correlacionado com o de casos apresentados em tribunal.
Mas o tempo passou e eis que nada, ou quase nada, se diz sobre o estado em que o aborto hoje se encontra. Ao final de todas as contas, em que unidades de saúde é que se vêm realizando abortos? E quantos já tiveram lugar? E quantas consultas existiram sobre a temática? E qual a percentagem de grávidas que pensavam abortar e desistiram de o fazer? E qual o panorama actual do aborto clandestino? Enfim, um conjunto vasto de questões sobre que pouca ou nenhuma informação nos tem chegado.
É desesperante constatar a completa inversão de valores com que se conduz a nossa vida política, de um modo geral prestando a mais fantástica atenção ao que menos interessa aos portugueses. E desses inúteis temas com que se gastam fortunas, como foram os casos do aborto e da droga, por exemplo, nem contas se prestam à comunidade nacional!
Ficamos à espera da lógica informação sobre as questões atrás referidas em torno do aborto e da situação da mulher. Mas, ou bem me engano, ou nada de verdadeiramente útil virá a ser dado ao conhecimento público. Ficamos à espera.

Hélio Bernardo Lopes

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D. Carlos, a piolheira, os políticos e os seus professores


Primeira história. Nos finais do mês de Janeiro de 2007, a agência lusa divulgou um estudo realizado, a nível mundial, pela empresa Gallup e encomendado pelo Fórum Económico Mundial. Foram inquiridas quase 62 mil pessoas em 60 países de todo o mundo. De acordo com os resultados deste estudo, os professores são os profissionais em quem as pessoas mais confiam, a nível mundial. Esta terá sido a resposta dada por 34% dos inquiridos. Muito à frente dos líderes religiosos, com 27% e dos dirigentes militares e da polícia, com 18% das preferências.
Considerando apenas os resultados obtidos ao nível dos países da Europa ocidental, as conclusões são muito idênticas. A maioria dos inquiridos respondeu que os profissionais em quem mais confia são os professores (44%), seguindo-se os líderes militares e policiais com 26%, os jornalistas (20%) e os advogados com 14% das preferências.
Em relação ao caso específico de Portugal, as conclusões vão no mesmo sentido. Os profissionais em quem os portugueses mais confiam são os professores (42%), seguindo-se os líderes militares e a polícia (24%), os jornalistas (20%) e os líderes religiosos (18%).
No campo oposto e de acordo com o mesmo estudo, parece situar-se a profissão de político. A nível mundial apenas 8% dos inquiridos declarou ter confiança nos políticos, o que os coloca no último lugar da lista de profissões consideradas. A nível europeu, apenas 10% das pessoas confiam no políticos, o que os volta a colocar no último lugar da tabela. Em relação a Portugal, a situação é em tudo idêntica, excepto na percentagem que ainda é mais baixa. Apenas 7% dos portugueses consideram que os políticos são os profissionais que merecem mais confiança.
Uma outra questão dizia respeito a quem dariam as pessoas mais poder, no seu país. A nivel mundial a maioria dos inquiridos declarou que daria mais poder aos professores (28%) e aos intelectuais (25%). Na Europa ocidental, os cidadãos dariam mais poder aos intelectuais (30%) e aos professores (29%). Quanto aos portugueses, as profissões a quem dariam mais poder seriam os professores (32%), os intelectuais (28%) e os dirigentes militares e policiais (21%).
Conclui-se que os resultados não divergem substancialmente de país para país. Todos eles são habitados por seres humanos que se debatem com problemas e aspirações semelhantes. A profissão de professor é aquela em quem as pessoas mais confiam e a quem dariam mais poder. A profissão de político é aquela em quem as pessoas menos confiam e a quem dariam menos poder.
Em Portugal, os políticos mandam nos professores, não confiam nos professores, cada vez lhes retiram mais poder e cada vez os desconsideram mais, o que parece estar em contradição com os resultados deste estudo independente e elaborado à escala mundial. Quanto aos professores, desde 1974 (para não ir mais longe) que obedecem aos políticos, cumprem todas as determinações, reformas e alterações que lhes são exigidas e aplicam as novas orientações e ordens que há mais de 34 anos vão chegando, constantemente, às escolas.
Segunda história (mais pequena). No dia 1 de Fevereiro de 1908 (comemora-se agora o primeiro centenário) foi assassinado, em Lisboa, o rei D. Carlos, penúltimo rei de Portugal. Homem culto, cientista, artista, diplomata e viajante, tinha fracassado na sua tentativa de reformar o sistema político português. Existiam, essencialmente, dois partidos políticos, um mais à esquerda, outro mais à direita, que iam alternando no poder, desde há décadas, com muito clientelismo, compadrio, corrupção, incompetência e descrédito pelo meio. Os portugueses estavam fartos e desiludidos com aquele sistema político do rotativismo. Ora estava um no poder, ora estava o outro. O país continuava pobre, miserável, rural e analfabeto. Quando D. Carlos foi assassinado, mais de 75% dos portugueses eram analfabetos. Consta que D. Carlos, quando regressava das suas viagens ao estrangeiro, costumava comentar que estava de regresso à sua piolheira. No fundo, também era um homem desiludido e que fracassara na sua missão de modernizar Portugal, melhorar as condições de vida das pessoas e tornar um povo triste num povo alegre e satisfeito com o rumo das suas vidas. Foi há cem anos.


Pedro Mota Curto

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Tributo a quem fez tudo pelo folclore


Ver os ranchos a dançar, contemplar as cores que os caracterizam e que mostram as vivências de cada região ou país, para além de escutar os sons que marcam os desenhos coreográficos, é espectáculo único. Este espectáculo acontece todos os anos, no mesmo mês, em Maiorca. Juntam-se culturas e hábitos, idiomas e sensibilidades.
Nestas linhas, exalta-se a dedicação que, durante mais de 30 anos anos, António Maia Cardoso emprestou a este seu projecto. Um projecto da cultura popular.
O seu empenho no verdadeiro folclore, no Rancho da Casa do Povo de Maiorca e na Federação do Folclore Português, valeu-lhe o reconhecimento público: Maia Cardoso foi galardoado com a Medalha de Ouro da Cidade.
Maia Cardoso foi um fervoroso adepto desta modalidade cultural e um entusiasta da Figueira da Foz. Fica o reconhecimento amigo do jornal que tantas linhas escreveu sobre folclore... e muitas das vezes por sua causa.
Um abraço amigo!


António Jorge Lé

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