Director:  
31/10/2008  
Ano 90º  
Edição N.º 5584  
O Figueirense
 
  Crónicas

20 mil milhões de saídas para crise!

ANÁLISE ECONÓMICA

Escrever sobre a situação económica nos tempos que correm, não é tarefa fácil. Emitir conselhos de investimento, em artigos de opinião sobre mercados financeiros, muito menos… No entanto, reconheço, é um desafio!
Nunca como hoje foi tão difícil escolher por onde começar, ou conseguir colocar tudo o que se quer dizer, numa coluna como esta. Assim, esta semana decidi não falar de bolsa, não explicar porque razão o PSI20 já caiu mais de 50% este ano ou mesmo qual o motivo que levou a EDP Renováveis a perder 50% do seu valor em menos de 2 meses… Nenhum destes assuntos é racionalmente explicável à luz da lógica económica. Portanto, quando me perguntam o porquê destes de outros acontecimentos semelhantes, a minha resposta é honesta: “Não sei!”. E duvido que haja quem saiba a verdadeira profundidade da crise actual, quanto tempo vai durar ou onde vai parar… ou até, que marcas vai deixar! Por todos estes motivos e mais alguns, hoje não se fala de bolsa. Ou seja, é o mesmo que dizer que não vamos projectar cenários nem dantescos nem bucólicos, nem tão pouco anunciar o fim do capitalismo, como muito boa gente já tentou fazer ao longo das últimas semanas.
O capitalismo não está moribundo e engane-se quem pensa que Fidel Castro ou Hugo Chavez nos vão dar lições de Economia - pese embora o facto do presidente venezuelano ser unha com carne com José Sócrates! Parece-me mais pedagógico e sensato, explicar que é um perfeito disparate, comparar a recente intervenção dos Estados no Capital dos bancos, com as nacionalizações de outros tempos. O que os governos estão a fazer neste momento, injectando dinheiro na banca em alguns casos e nacionalizando total ou parcialmente bancos, em outros casos, é precisamente contrariar o fim do capitalismo. Não se trata de chamar a si o controlo da actividade bancária, mas viabilizar o negócio de tomada de depósitos e concessão de crédito – duas actividades fulcrais ao funcionamento de qualquer economia de mercado.
As empresas necessitam de financiamento para investir e fazer crescer a actividade económica e as famílias precisam de ter confiança no sistema bancário para depositar as suas poupanças. E foi neste equilíbrio, entre deficitários e excedentários de liquidez, que o Estado entrou, garantindo a harmonia entre agentes económicos.
Neste contexto, a que quase nenhum país desenvolvido escapou, surge a intervenção do governo português, anunciando um plano de 20 mil milhões de euros para garantia do financiamento pedido pelos bancos portugueses a outras instituições.
É preciso notar que, não se trata de injecção de dinheiro no sistema bancário português, nem tão pouco de um plano de compra de bancos para fazer companhia à Caixa Geral de Depósitos no património do Estado. É apenas uma garantia que, desejavelmente, nunca será accionada. De nada serve nós dizermos que confiamos nos nossos bancos.
Lá fora, os investidores estrangeiros precisam neste momento de garantias estatais, para emprestar dinheiro aos bancos sedeados em Portugal. E é nesse âmbito que, a Lei 60-A/2008 e a Portaria 1219-A/2008, ambas já publicadas em Diário da República, vêm preencher essa garantia necessária ao financiamento dos bancos.
Com esta medida, o governo aliviou a tensão de liquidez que a banca portuguesa vivia, pois permitirá a esta financiar-se nos mercados de capitais internacionais, pagando, ao Estado, um preço por esta garantia. As empresas respiram também um pouco, de alívio, pois se os bancos não se conseguissem financiar, a sua actividade estaria igualmente comprometida.
O preço a pagar pela economia nacional chegará mais tarde: o crédito barato terminou e os bancos vão ter que reflectir, nas empresas e nas famílias, o preço do dinheiro que é “comprado” mais caro lá fora.
Talvez seja agora o momento de reanimar o mercado de arrendamento, menos arriscado e mais realista para a bolsa da maior parte dos portugueses!

* Economista
(miguelgomesdasilva.bolsa@gmail.com)

Miguel Gomes da Silva (*)

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Mário Silva: o homem, o sonho e a obra

A CIDADE E A SERRA

Nos últimos dias, várias figuras figueirenses estiveram em foco (por boas razões), mas seja-nos permitido, sem querer melindrar quem quer que seja, destacar duas delas, e que são Zé Penicheiro e Mário Silva.
Do primeiro já falámos na passada semana, naturalmente de forma perfunctória, e desta feita, com as devidas desculpas, vamos reincidir, alvejando Mário Silva.
E por que fazemos isso? Por várias razões, mas, essencialmente, porque ambos, indiferentes às contingências, teimam em continuar sentados nas asas do idealismo. Por outro lado, são pessoas que ao optarem por uma forma de vida assente na arte, trocaram o certo pelo incerto, confirmando o que António Gedeão pensou e passou para a poesia.
E fizeram essa opção com tal “engenho e arte” que conseguiram um estatuto muito próprio (que enobrece a Figueira da Foz), o que não é fácil para quem está afastado das “capelinhas” lisboetas, onde se fazem e desfazem talentos ao sabor dos ventos.
Por isso, não admira que na passada semana, Mário Silva tenha sido agraciado com a Medalha de Ouro da Figueira da Foz, e visto a sua obra representada numa exposição patente no CAE.
Esta exposição, composta pelas diversas facetas nas quais o artista se envolveu, e enquadrada por fotos que compõem a sua postura apolínea, permite traçar o perfil de um artista que é representativo da geração atingida pelos efeitos (colaterais) da 2.ª Grande Guerra Mundial e que, por isso, pensou que também em Portugal seria possível mudar o rumo da História o que, como é sabido, não veio a acontecer.
Porém, mesmo em “tempo de servidão há sempre alguém que diz não”, e como era impossível tapar (com a repressão) os ventos que sopravam de além-pirinéus, surgiram nas cidades com universidades, grupo de jovens que, se, por um lado, repudiavam a “arte do regime” apadrinhada por António Ferro, por outro, também não se identificavam com a construção das imagens paradoxais do surrealismo, ou com as cores da didáctica popular preconizada pelo neo-realismo.
Com uma forte relação com o expressionismo, nasceu entre nós, no início da década de 50, o “abstraccionismo”, movimento que no fundo visava dar uma certa universalidade à pintura, com recurso a uma linguagem de pesquisa na estruturação de formas e cores.
Nesse movimento, que em Coimbra teve como expoente o Círculo de Artes Plásticas, integrou-se de alma e coração o jovem Mário Silva (herdeiro de um nome respeitado na Universidade e na ciência internacional) que de imediato se evidenciou pela contestação a um ambiente castrante que tolerava a “irreverência” dentro da lógica mitológica estudantil, mas avesso ao que pudesse alterar a ordem estabelecida ou trazer implicações sociológicas.
Por isso, Mário Silva decidiu trocar os bancos da universidade sebenteira pelo percurso que o levou a diversas partes do mundo, das quais sempre regressou, decerto porque, como Vieira da Silva, entendia que “quando penso em Portugal, penso sempre no mar”.
Foi esse apelo marítimo que, certamente, ajudou a fixar Mário Silva na Figueira da Foz, onde repensou a sua opção artística e projectou uma obra, simultaneamente, inocente, controversa, complexa e complicada que deixa perceber na sua plasticidade onírica, como é possível no acanhado mundo das artes provincianas, fazer coincidir persistência com sobrevivência, ou ser, simultaneamente, agitador com humor; tolerante e actuante; irrequieto e discreto.
Voltamos a recorrer ao poeta António Gedeão para (tentar) classificar a vida e obra de Mário Silva. De facto, diz ele no seu célebre poema que “o sonho comanda a vida”, mas o pintor conseguiu complementar essa evidência com a afirmação de que, para tanto, será necessário o complemento da vontade e da determinação. Nisso o artista é “primus inter pares”.

* Jornalista

A. Ventura (*)

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